domingo, 22 de novembro de 2009
Quanto a mim
Tenho falado pouco de mim. Tenho escrito nessas linhas detalhes sutis da vida dos outros (que não existem). Fantasio, fofoco, recrio. Mas tenho falado pouco de mim. A verdade é que estou gorda e um pouco cansada talvez. Tenho vivido vidas opostas; sonhos alheios, realidades irreais. E pensado pouco em mim mesma. Ando triste na medida. Sozinha e solitária como quase sempre. É que gosto muito da minha companhia, dos meus pensamentos. E, desta vez, estou de fato me acompanhando. Parei de usar estórias antigas e fugazes para me distrair. Tenho um foco claro e brilhante (que teima em percorrer as escadarias da ilusão). Ladeira acima, coloco um pé por vez. O alto do morro está lá, a uma distância intangível – graças a deus. Tenho sido mais complacente e compreensiva. E estou calma com relação ao futuro. Todo dia um dia novo; todos os dias uma nova descoberta. Conheci coisas belas e sujas. Coisas podres de pessoas laqueadas, faces ocultas de sorrisos sinceros. Ando em minha própria companhia. Às vezes, flagro olhares furtivos e aflitos que buscam uma compreensão profunda qualquer. No fundo, estamos todos presos em nossos castelos; subindo os altos muros para nos escondermos das (nas) sombras. Acho bonita a idéia disso tudo. Utópica. Mas vejo cada vez mais gente se perdendo no labirinto, procurando saídas para problemas inexistentes. É tudo uma questão de perspectiva. Do alto, as coisas de baixo parecem pequenas. Mas quem insiste em rastejar tem ótica diferente: mundo de gigantes e fantasmas. Ando no prumo. Com a cabeça ereta e os sentimentos em dia. Acho uma pena não me envolver mais com certas pessoas; arrependo-me de envolvimentos desnecessários. Mas hoje (ou seria ultimamente?) sou sincera comigo mesma. De uma verdade crua e dolorida. Digo coisas que nunca deveriam ser ouvidas. As palavras falam por si só. Mas não perco mais meu tempo com relacionamentos infrutíferos e desgastantes. Preservo-me com armaduras e látex. Mas ainda espero – esperança urubu – olhos que faísquem os meus; peles que me façam ferver. Por ora, ando em calma. Silêncio custoso e real. E as saudades – que foram muitas e intensas – têm se aplacado em vagar, criando a certeza de que o que é não deixará de ser jamais. E o que não é não merece um só pranto. Conto carneiro ao revés. Brinco de lobo mau. E ando ativa: pró e passiva dos acontecimentos do enredo. Deixei-me levar. Por ora (confesso), ando cansada de manusear os títeres. Sou boneco sem rumo, bailando esta valsa louca: composta pelo acaso.
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sábado, 21 de novembro de 2009
Branco
Com os dedos já em sangue de tanto tecer, olhou a vestimenta completa e orgulhou-se de si. Havia engenhado o mais perfeito manto. A mais linda prova de fé e sagacidade. Pensou em desistir por um momento, mas vendo o brilho daquele pedaço de tecido – que há pouco não passava de um trapo – teve certeza de sua missão. Nunca mais deixaria de coser. Foi banhar-se, então. Não se sentia digna de tamanha realeza, e por isso banhou-se, lavando o corpo e a alma. Enquanto a água gelada dourava-lhe a pele, desculpou-se por tantos erros e por todas as mentiras. Olhou as falanges – desfiguradas e irreconhecíveis – e não conseguiu ver nenhum sacrifício naquilo. Por um instante, teve certeza de que toda a sua vida só tinha sido necessária para chegar àquele exato momento; àquela deliciosa sensação. Seu corpo inteiro formigava, em uma dormência embriagadora e apavorante. Tinha borboletas no estômago e, enquanto a água gelada lhe escorria pelo rosto, e seus olhos fechados lhe mostravam o breu, soube que a felicidade não passava de um segundo. Infinito e irreal. Teve pena dos que passariam pela vida sem essa sensação. Teve orgulho de fazer parte do que realmente importava. E desligando o chuveiro, com as gotas a abrirem caminho no chão de pedra, enrolou-se no manto sagrado, molhada do banho e das lágrimas. Hesitou em olhar-se no espelho. Não podia ser merecedora de tamanho deslumbre. Mas ousou. Prendendo os cabelos em um nó com suas próprias pontas, deixou mechas escorrendo pela face, e se atreveu a respirar fundo. Sabia que seus lábios estavam vermelhos e inchados. Sentia seus peitos bailando num cancã frenético de francesas de outrora. Pensou em desistir de sua audácia, mas viu-se de relance no espelho comprido, que apresentava o manto por inteiro envolvendo a sua nudez ainda juvenil. Era então uma santa. Alva e rubra, manchada pelo sangue espesso que brotavam das bolhas dos dedos. Era ainda jovem. Mas já sofria na pele as chagas da transformação. Sentia medo, orgulho, desespero. Era apenas mais um passo indeciso e concreto rumo à vida adulta e, quiçá, adúltera. Passou os dedos nos lábios em um gesto sensual que lhe fez questionar sua serenidade. Paralisou-se. Mas era tarde demais. Já estava vestida de branco, borrada com o sangue que lhe escorria pela pele. Na cama, não menos apavorado do que ela, o homem já dava sinais de profundo amor e submissão. Tinha, sem querer, ganhado um jogo perdido. Estava com os dedos doloridos, e os lábios cansados e vermelhos, gritando de dor. Sentia-se plena e envergonhada. E tinha, agora, uma história para contar. Cedendo seu peso ao quente da cama, sentiu aqueles braços fortes a envolver sua magreza. Aquela língua úmida a desejar sua nudez. Teve medo da morte. E, com os olhos fechados e o lábio entre os dentes, pediu, em silêncio, para que o tempo nunca passasse.
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Castelo
Com os olhos marejados, respirou fundo e voltou. Não era a primeira vez que o fazia. Mas desta vez suspirou diferente, como quem ainda não sabe o que está por vir. Teve medo, enfim. Mais uma vez foi hostil, falou mal de si mesma, pensou bobagens, sorriu mentiras. E encantou. Como de praxe, encantou. Mas assustou também. E, com sua armadura devidamente colocada a quilômetros de distancia, fez sua barreira mais eficiente do que nunca. Aí se sentiu sozinha no castelo que havia construído para si. E não soube como sair dele. Havia fechado as entradas, barrado as saídas, trancado as janelas. Olhou-se refletida em vidro, e teve medo de sua pavorosa astúcia. Como havia sido tola – pensou. E, aos poucos, de leve mesmo, principiou a afastar as cortinas, deixando entrar pequenos feixes de luz, sorrateiros. Ainda sim, não conseguiu conceber a possibilidade de destrancar a porta. Mas experimentou abrir as janelas, deixando o sol entrar de vez. Foi então que o castelo ficou quente e, sem perceber, a princesa teve vontade de brincar nos jardins, de sentir a brisa leve a lhe balançar os cabelos, e de corar as faces de vergonha e mormaço. Sorriu – como há tempos não o fazia. Deparou-se com um rosa ainda em botão, que a fez pensar, sem querer, em um sorriso distante que por ora parecia mortificado. Mas ainda assim sorriu. Estava de novo entrando em contato com a natureza e com a vida. E foram as borboletas que sobrevoavam o jardim que a fizeram perceber como o seu coração andava em pedra. Amoleceu-o em banho-maria, transformando-o em uma substância pastosa e doce como brigadeiro. E as muralhas do castelo derreteram-se instantaneamente, abrindo os horizontes para as montanhas e o mar. A princesa, nesta hora, cantou. Com os lábios e a alma. E convidou a lua para um passeio noturno. E foi assim que, ao acaso, os olhos da princesa voltaram lentamente a brilhar, e o seu coração voltou a adoçar a vida de sapos e príncipes. Assim. De repente. Porque é de uma decisão que brotam os pequenos amores. De um sorriso no olhar e de uma certa calmaria interna. E de um desassossego moreno, de olhos fundos e coxas grossas. E é assim, inspirada pela estória da princesa, que planto uma semente de cacau – primeira e eterna. Planto para que germine. Rego para que dê frutos. E sorrio, para que saibam que por baixo de uma casca grossa, sempre pode haver uma deliciosa surpresa.
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Retorno
Ouvindo palavras que não sei de onde vem. Tenho saudades dessas vozes que adentram meus ouvidos e me fazem pensar em coisas que eu já tinha abafado. Ah saudade daquela pessoa que já fui e não sou mais. Hoje levo a paz. Uma paz profunda e serena, que me faz esquecer por instantes do maremoto que sou por dentro. A ausência me faz completa. E, na completude, me falta um pedaço. Estou feliz com as coisas que deixaram de ser. Caminho da vida. Pequenos sorrisos conquistados, pequenas conquistas sorridentes. Hoje vou deixar de me esquecer, e lembrar-me daquilo que está por vir. Os cabelos loiros, o sorriso, as possibilidades. Ah vontade arrebatadora de deixar de acontecer. De deixar acontecer e só. Sou o sonho e as pequenas realidades. As responsabilidades e as pequenas loucuras cuidadosas. Sinto medo de deixar de ser. E deixarei, é fato. Deixaremos, todos. Por ora, choro lágrimas de profunda beleza. Pequenos brilhantes em meio a este deserto de ganância. Simples jogos de cena que criarão a poesia desse nosso viver. Tenho pena, ainda. De mim. Não de mim. Não de nada, de tudo, enfim. E as cifras magnéticas e intangíveis enfim começam a fazer algum sentido obscuro e delicioso. Na carteira, fotos antigas e amareladas. Cartões, fichas, possibilidades. Tenho elaborado um projeto. Minucioso. Envolve alianças e um altar. Olhos calmos e febris. Ao lado, na brancura do edredom vazio, a solidão. Bonita, ela. Passageira. No bolso, o bilhete para outro começo. Inicio de tentações e libertinagens. Ainda os cachos loiros. Ainda aqueles olhos apertados, abraços apertados, amassos. Coisas belas e sujas; profundas e sutis. Ao mesmo tempo, o pânico. Rosas, flores, fotos. Cartões e cartazes. Uma sensação de borboletas no estômago, um enjôo, uma gordurinha localizada. Tudo na mais perfeita imperfeição. Natural. Covinhas e umbigo, sentimentos, sentido. Há sentido? Sorrisos. Só risos. Olhos calmos e profundos. Olhos tristes. Castanhamente. Com calma, sigo arrepiada na tênue linha que separa a loucura do não ser. Será? Com pêlos eriçados, nada mais precisa de justificativa. Ação, apenas ação. Letras soltas em telas irreais, olhos fervorosos em busca de sentido inexistente. Tudo pouco. Tudo melodias repetitivas e deliciosas. E o medo. Graças! O medo. Sempre e nunca. Nuca. Boca. Chão e asas. E o céu, mais próximo que o chão, mais bonito que o próprio. Mais meu. E seu. Como é bom estar de volta!
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
No pulo
Só então percebeu que nada do que falava fazia sentido. Ela havia inventado, como sempre. Havia criado uma realidade paralela bem mais interessante do que a realidade que vivia. Pena – pensou. Mas sorriu, observando os pássaros negros que voavam ao longe. Ainda pela janela, pode avistar o pôr do sol, que se apresentava sem pressa, em um palco distante. Pensou novamente no ator, e em quando voltaria a vê-lo. O tempo era seu principal inimigo. Tentou desvencilhar-se destes pensamentos soturnos, e lembrou-se daqueles corpos, ainda garotos, a se conhecer em um réveillon qualquer. Fazia muito tempo. E o tempo era seu inimigo. Sorriu sem graça dos cabelos desgrenhados que lhe olhavam agora, do fundo da tela. Ela sentia saudades. E ele, o que sentia? Sorriu de dúvida e de medo. Chorou. Nada como envelhecer. Dia após dia, ruga após ruga. Renew – pensou. Nada mais óbvio. E, besuntada de creme, teve vergonha de seus pensamentos eróticos. Era hora de dormir. Pensou nos loiros cachos que compartilhavam suas idéias. Parceria vitoriosa. Pensou nos outros cachos, ainda curtos, a se enroscar nos seus. Loiros cachos também. Parceria perfeita, formada ao acaso. Não sabia a hora de contar. Mas lembrava dos sorrisos que nunca havia visto, e queria trocar letras e sons. Queria fazer um amor dançante, cheio de arte e harmonia. Se era a pessoa certa? Ainda não sabia. Mas sempre se precipitava. Era de praxe. Sempre se surpreendia. Soluçando de uma noite feliz, teve pena do garoto ainda menino que morreria antes de saber o que é o amor. Para ele, faltava a calma de esperar. Para ele, faltava apenas a paciência de saber. Detestava saber dos amores com antecedência. Sempre lhes depositava mais moedas do que mereciam. Estava de novo fantasiando. Brincando, mais uma vez, de ser feliz. Tinha saudade dos olhos tristes, da melhor boca do mundo, das sardas perdidas por aí. Mas sabia de cada pequena pinta localizada. Sabia pensar, enfim. Pensou, portanto, o quanto seria bom mais um trago e ainda mais um gole. Pensou naqueles braços que não lembrava, e naquela pele que jamais poderia esquecer. Pensou, enfim, nele; como jamais ousara pensar depois de tudo. Pensou nos sorrisos, e nos olhos, e na dor. Sentiu-se parte. E distante. Perdeu-se. E chorou. Com as mãos vacilantes, e os olhos concisos. Chorou de amor e de medo. Porque o tempo passa. Passa rápido. Passa perto. Passa por nós.
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
Destinos
E então ele subiu o morro e se despediu – sem olhar para trás. Não queria ver os olhos cintilantes da menina que sorria. Não queria admitir sua própria partida. Correu por entre os carros até alcançar a porta do ônibus e parou, por um momento. Pela primeira vez, hesitou. Não queria se afastar. Mas era preciso. Naquele momento, era preciso. Enquanto sacolejava pelas estradas esburacadas, pensava naquele sorriso inocente, que ele se recusara a ver. Jamais esqueceria aquele sorriso a lhe atravessar as costas e atingir – em cheio – o coração.
Parada no sopé do morro, a menina ainda guardava nos lábios aquele sorriso sem graça. Os olhos ainda brilhando como luas novas. E, embora tentasse transparecer essa atmosfera calma, por dentro era só trevas. Um oceano escuro e revolto de sentimentos que não podia compreender. No ventre, a esperança de dias melhores. No ventre, sua sentença irrevogável de vida. Tentava – bravamente – conter a ânsia de vômito que lhe invadia ao pensar nele, sozinho, sacolejando pelas estradas esburacadas. Ela também deveria estar lá. E ele fora embora sem ao menos olhar para trás.
Por mais que tentasse se convencer, ainda não conseguia acreditar que tinha tomado a decisão certa. Tinha-a deixado para trás, como o ventre ainda em ponta e os olhos ainda em mar. Não era certo. Não era justo. Mas não podia adiar seus planos por causa de um percalço. Deveria, sim, seguir em frente e construir o futuro que traçara a duras penas. Ainda que sozinho. Por um instante, chorou. Não era certo. Não era justo. Só metade de tudo aquilo era verdade. O sonho estava dividido em duas partes desiguais e desconexas. Três partes. Seria menino ou menina? Com as ondas a lhe avançar pelos olhos, soluçou quieto enquanto tentava tomar a decisão mais sensata. Havia gasto todo seu dinheiro. Já usara todos os sonhos que lhe cabiam no bolso. Do lugar exato onde estava, não havia volta. Não mais.
Tentava compreender os motivos de sua partida. Tinha, a muito custo, apoiado sua decisão. Mas depois de ouvir o ronco do motor ao longe e de não sentir as pedras do caminho, passou a desacreditar da sorte. Por dentro, era só ausência. Uma ausência maldita e desesperadora de se sentir dois enquanto era metade. Carregava consigo um amor convulsivo e desesperado. Um filho natimorto de paixão abortada. Um ventre recheado de desilusões e angústias. Por alguns segundos, sentiu-se morta, e tal sensação lhe foi demais agradável para conseguir afastar o pensamento inevitável do fim da vida. Abreviar o sofrimento seria um ato de coragem, e não de covardia. Sorriu de sua destreza. Sabia, enfim, como lidar com a situação.
Dentro das lágrimas que rolavam de seu rosto endurecido pelo tempo, havia algum tempero amargo de culpa. Sabia que não podia tê-la deixado. Sabia que o fardo era também seu. Por isso, na primeira parada do ônibus, teve ganas de sair correndo, e nunca mais voltar. Mas deixou-se ficar na cabine do banheiro, sentado por sobre o vaso sujo e malcheiroso, tentando embriagar-se de pingas e pensamentos. Tentando encontrar forças para se levantar. Ouviu quando o motor voltou a ligar-se, e o motorista buzinou duas vezes, anunciando a nova partida. Ouviu, mas continuou parado, no mesmo lugar, esperando que o acaso decidisse por ele. Lembrou-se daqueles olhos de lua nova como duas estrelas a iluminar seus passos. Tomou mais um trago, e ainda outro, e outro. Deixou-se cair por entre a louça do banheiro, e seus soluços poderiam ser ouvidos a quilômetros de distância, caso não os abafasse com aquela mão calejada e tosca. E com aquela certeza de que nada iria mudar.
Sorriu de sua bravura e custou a acreditar no que faria. Ela, menina-moça, tão vulnerável e tão forte, tão absolutamente dona de seu destino. Não teve tempo de repensar. Nem sequer hesitou. Correu morro acima, por entre os carros e os ônibus e ainda mais e mais. Chegou ofegante ao topo do morro – mirante da cidade – e ainda antes um pouco observou a vista. Ainda teve este tempo. Observou a cidade que lhe prendia e o abismo que a libertava. Tomou um pouco de distância, sentiu a pulsação aumentar numa descarga de adrenalina, e se lançou. Um salto para o infinito. Uma gota de liberdade. Naqueles segundos intermináveis – enquanto durava a queda – ainda teve tempo de ter certeza de que não podia se arrepender. Não iria se arrepender. Morria consigo o amor e o destino. Estava, enfim, livre outra vez.
Dormiu abraçado àquele vaso imundo, alternando crises de choro e vômito. Como companheira, apenas a garrafa plástica de aguardente barata. Acordou no meio da noite, entre o som dos grilos e dos pneus no asfalto. Não sabia ao certo quanto tempo tinha ficado ali. Não sabia mais se lhe restava algum tempo. Com as migalhas de sua dignidade, pensou que não poderia – jamais – voltar para casa assim. Ficaria rico. Só voltaria para lá quando estivesse rico. Ainda seria digno de rever aquele seu sorriso inocente, e aqueles seus olhos cintilantes. Por ora, pedia desculpas a si mesmo e maldizia o destino. Mas a sorte ainda havia de mudar. Um dia – ele pensava. Um dia...
Por alguns dias, pensaram que ela tinha fugido atrás dele. Custaram a encontrar o corpo em frangalhos no fundo do precipício. Tentaram avisá-lo. Em vão. Havia sumido no mundo como um rato. Ninguém jamais o encontraria. Anos depois, ainda sem dinheiro e com nenhuma dignidade, fora encontrado morto em um quarto sujo de hotel barato. Cirrose – diagnosticaram. Nunca soube de seu salto no abismo. Passou o resto dos dias com uma pedra presa aos pés, como um afogado a se debater. Não conseguira emprego, nem dinheiro, e muito menos amor. Ainda um pouco antes de seu coração parar e seus olhos perderem o brilho, lembrou-se daquela lua nova e do sorriso cintilante. Sentiu pena de si por não ter conhecido o filho. Pediu desculpas e morreu sem paz.
Não se encontraram no além. Não se encontraram nunca mais. Com medo daquela pobreza arrasadora, morreram separados, cada um em sua miséria. Mas ambos, no último suspiro, maldisseram o amor. Maldito amor. Maldito e sufocante amor.
Parada no sopé do morro, a menina ainda guardava nos lábios aquele sorriso sem graça. Os olhos ainda brilhando como luas novas. E, embora tentasse transparecer essa atmosfera calma, por dentro era só trevas. Um oceano escuro e revolto de sentimentos que não podia compreender. No ventre, a esperança de dias melhores. No ventre, sua sentença irrevogável de vida. Tentava – bravamente – conter a ânsia de vômito que lhe invadia ao pensar nele, sozinho, sacolejando pelas estradas esburacadas. Ela também deveria estar lá. E ele fora embora sem ao menos olhar para trás.
Por mais que tentasse se convencer, ainda não conseguia acreditar que tinha tomado a decisão certa. Tinha-a deixado para trás, como o ventre ainda em ponta e os olhos ainda em mar. Não era certo. Não era justo. Mas não podia adiar seus planos por causa de um percalço. Deveria, sim, seguir em frente e construir o futuro que traçara a duras penas. Ainda que sozinho. Por um instante, chorou. Não era certo. Não era justo. Só metade de tudo aquilo era verdade. O sonho estava dividido em duas partes desiguais e desconexas. Três partes. Seria menino ou menina? Com as ondas a lhe avançar pelos olhos, soluçou quieto enquanto tentava tomar a decisão mais sensata. Havia gasto todo seu dinheiro. Já usara todos os sonhos que lhe cabiam no bolso. Do lugar exato onde estava, não havia volta. Não mais.
Tentava compreender os motivos de sua partida. Tinha, a muito custo, apoiado sua decisão. Mas depois de ouvir o ronco do motor ao longe e de não sentir as pedras do caminho, passou a desacreditar da sorte. Por dentro, era só ausência. Uma ausência maldita e desesperadora de se sentir dois enquanto era metade. Carregava consigo um amor convulsivo e desesperado. Um filho natimorto de paixão abortada. Um ventre recheado de desilusões e angústias. Por alguns segundos, sentiu-se morta, e tal sensação lhe foi demais agradável para conseguir afastar o pensamento inevitável do fim da vida. Abreviar o sofrimento seria um ato de coragem, e não de covardia. Sorriu de sua destreza. Sabia, enfim, como lidar com a situação.
Dentro das lágrimas que rolavam de seu rosto endurecido pelo tempo, havia algum tempero amargo de culpa. Sabia que não podia tê-la deixado. Sabia que o fardo era também seu. Por isso, na primeira parada do ônibus, teve ganas de sair correndo, e nunca mais voltar. Mas deixou-se ficar na cabine do banheiro, sentado por sobre o vaso sujo e malcheiroso, tentando embriagar-se de pingas e pensamentos. Tentando encontrar forças para se levantar. Ouviu quando o motor voltou a ligar-se, e o motorista buzinou duas vezes, anunciando a nova partida. Ouviu, mas continuou parado, no mesmo lugar, esperando que o acaso decidisse por ele. Lembrou-se daqueles olhos de lua nova como duas estrelas a iluminar seus passos. Tomou mais um trago, e ainda outro, e outro. Deixou-se cair por entre a louça do banheiro, e seus soluços poderiam ser ouvidos a quilômetros de distância, caso não os abafasse com aquela mão calejada e tosca. E com aquela certeza de que nada iria mudar.
Sorriu de sua bravura e custou a acreditar no que faria. Ela, menina-moça, tão vulnerável e tão forte, tão absolutamente dona de seu destino. Não teve tempo de repensar. Nem sequer hesitou. Correu morro acima, por entre os carros e os ônibus e ainda mais e mais. Chegou ofegante ao topo do morro – mirante da cidade – e ainda antes um pouco observou a vista. Ainda teve este tempo. Observou a cidade que lhe prendia e o abismo que a libertava. Tomou um pouco de distância, sentiu a pulsação aumentar numa descarga de adrenalina, e se lançou. Um salto para o infinito. Uma gota de liberdade. Naqueles segundos intermináveis – enquanto durava a queda – ainda teve tempo de ter certeza de que não podia se arrepender. Não iria se arrepender. Morria consigo o amor e o destino. Estava, enfim, livre outra vez.
Dormiu abraçado àquele vaso imundo, alternando crises de choro e vômito. Como companheira, apenas a garrafa plástica de aguardente barata. Acordou no meio da noite, entre o som dos grilos e dos pneus no asfalto. Não sabia ao certo quanto tempo tinha ficado ali. Não sabia mais se lhe restava algum tempo. Com as migalhas de sua dignidade, pensou que não poderia – jamais – voltar para casa assim. Ficaria rico. Só voltaria para lá quando estivesse rico. Ainda seria digno de rever aquele seu sorriso inocente, e aqueles seus olhos cintilantes. Por ora, pedia desculpas a si mesmo e maldizia o destino. Mas a sorte ainda havia de mudar. Um dia – ele pensava. Um dia...
Por alguns dias, pensaram que ela tinha fugido atrás dele. Custaram a encontrar o corpo em frangalhos no fundo do precipício. Tentaram avisá-lo. Em vão. Havia sumido no mundo como um rato. Ninguém jamais o encontraria. Anos depois, ainda sem dinheiro e com nenhuma dignidade, fora encontrado morto em um quarto sujo de hotel barato. Cirrose – diagnosticaram. Nunca soube de seu salto no abismo. Passou o resto dos dias com uma pedra presa aos pés, como um afogado a se debater. Não conseguira emprego, nem dinheiro, e muito menos amor. Ainda um pouco antes de seu coração parar e seus olhos perderem o brilho, lembrou-se daquela lua nova e do sorriso cintilante. Sentiu pena de si por não ter conhecido o filho. Pediu desculpas e morreu sem paz.
Não se encontraram no além. Não se encontraram nunca mais. Com medo daquela pobreza arrasadora, morreram separados, cada um em sua miséria. Mas ambos, no último suspiro, maldisseram o amor. Maldito amor. Maldito e sufocante amor.
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Conquista
Mais uma dessas viagens inesperadas, que me ocorrem de madrugada, enquanto os dados do cartão de crédito cismam em estar ao alcance das minhas mãos. Mais uma atitude impensada. E de novo eu, sozinha, no aeroporto, pergunto-me por que é que estou de novo indo para lá. Por que assim, tão de repente. Não sei se sei fazer planos a longo prazo. Todos eles se desfazem antes do tão sonhado dia. Vivo o agora. Por hoje, malas arrumadas com pressa, dia cheio de compromissos inadiáveis e, de novo, a paz. Do alto, de cima, a paz. A estranha sensação – pela primeira vez – de não estar voltando para casa. A casa é a que fica. Vou de passagem, de visita. Meu lugar é no sovaco do cristo, no edredom branco com almofadas vermelhas. No banheiro ainda sem box. Estranho a sensação de crescer, de achar meu lugar no mundo diferente do lugar onde nasci. Tenho saudades dos amigos, das crianças, dos momentos, de lugares. Tenho saudades de um eu que fui e já não sou. O passado, como parte do presente, infelizmente não me serve mais. Roupas velhas que deixei de usar, embora ainda as guarde com carinho. Aos poucos, vou sentindo a familiaridade do exílio. Sensação que nunca imaginei plenamente possível. Lembro daquele menino com os olhos tristes, que me sorriu, doído, antes de partir. Talvez ele não tenha encontrado esta paz. Me compadeço dele e dos momentos que não vivemos. Ainda não consigo deixar de acreditar que teria dado certo. Mas agora, outros olhos me sorriem brilhantes, e eu acabo por me convencer de que daria certo, de qualquer forma. Sozinha, vazia, custo a esconder a sensação de completude que me invade. Sorrio da mulher que me tornei. Ainda menina, ainda sem graça. Mas forte como sempre e confiante como nunca. No saguão, por entre os ouvidos, ruído de teclas soltas a se divertirem com os dedos. Mais uma lua de mel com o teclado. Por dentro, uma esperança maldita, que brinca de me preencher e me iludir. Sempre gostei de acreditar. Ainda olhos castanhamente tristes, ainda cabelos levemente desgrenhados, ainda um sotaque acentuado. Ainda em mim imagem dos que se fizeram sentir, e dos que ainda hão de se mostrar. Observo com calma o caminho que eu mesma desenhei. Dou passos lentos e contínuos rumo ao futuro. Afinal, não foi isso que eu quis? Não pedi, batalhei, conquistei e me surpreendi. A vida acontece no enquanto. E o medo, por mais que pareça assustador, é inevitável e vital. Viva o medo. A alegria. A esperança e o amor. Benditos os sonhos que ousamos sonhar e tivemos a braveza de construir. E viva o futuro. Esse invejável senhor que nasce sempre do agora.
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
Prelúdio
Fazendo coisa errada, eu sei. Mas como é bom errar de vez em quando... Nada como perder os pudores, e viver a verdade. Nada como respeitar o corpo e se render ao mau-senso. Não gosto de pensar nas conseqüências quando elas são efêmeras e – convenhamos – insignificantes. Bobagens. Apesar de tudo, somos adultos, e sabemos muito bem onde essa montanha russa vai dar. Obviedades. Por isso arriscamos. Pois sabemos dos contratempos e das ridicularidades.
(Tempo)
O tempo passou e as bobagens continuam sendo feitas. Nesse arquivo intangível, fica fácil acompanhar as desilusões e desavisos de uma vida bem regrada. Nada mais natural do que errar. Por ora, ando observando movimentos alheios, pensando em irreais e sutis separações e desencontros. Brincadeiras de adultos. Como crianças, continuamos correndo contra o tempo, tentando inibir esse tal futuro que nos apavora e nos consome. Morrer já não parece novo. A proximidade do fim nos envelhece. Rugas a mais, sentimentos a mais, tempo de menos. No relógio, ponteiros incessantes girando em torno de nossos umbigos. Vida que segue. Nada como a vida para aplacar a morte. Hoje, sinto saudades doídas das crianças que já não são. Penso em meus sobrinhos, correndo, felizes, para conhecer o novo presente. Presente é hoje. Saudade estranha da criança que fui e não conheci. Na cabeça, o tempo. Tempo demais para acreditar, tempo pequeno para se desiludir. Tenho refletido sobre trocar de profissão. Custo a admitir, mas acho que os dedos andam me dando mais alegrias do que os palcos. Decepções. Escrevo porque preciso. Desisto porque me entendo. E, dia após dia, vou elaborando esse labirinto sem saída aparente, este turbilhão de idéias que resumem a existência. Sentada no parque, sozinha, atrás de mesa enorme. Sozinha comigo mesma. Vou brincando de ser o deus da sintaxe. Vou mexendo nas palavras e guimaraneando verbetes. Escrevo o que sinto, não dicionario. Por vezes, duvido das letras e das frases. Elas não importam. Fonema por fonema, o texto se faz sólido; construindo, por si, seu completo significado. Estou travada. As cenas, perfeitas em pensamento, recusam-se a ganhar vida no papel. Não há ilusão real. Pingo por pingo, a enxurrada de letras se faz cachoeira, tocando, gelada, corações que andam em pedra. Letras são a matéria da alma. Metafísico? Não sei. Acredito nos livros e nas poesias. Duvido dos poetas e escritores. Indivíduos são veículos das línguas. Não são a arte. São a torneira por onde ela escoa incessante; por vontade própria. Hoje cantarolo uma música que não conheço. Brinco de adivinhar o futuro e de me iludir com ele. Hoje esqueço o prazer e procuro um amor. Amor calmo, como já o disse. Tenho duvidado das coisas reais. Tenho sonhado com aquele cabelo desgrenhado. Mas enquanto os carneirinhos não param de pular a cerca, prefiro manter os olhos bem abertos. A realidade me afoga. Mergulho em dias calmos de sol e brisa fresca. Firmo parcerias importantes, brinco de acreditar. Porque por nada, sem nada, o jogo da vida se desfaz. Sem querer, sem razão. Porque o último pode ser hoje, e o dia parece lindo. Carpe diem. Aproveitem.
(Tempo)
O tempo passou e as bobagens continuam sendo feitas. Nesse arquivo intangível, fica fácil acompanhar as desilusões e desavisos de uma vida bem regrada. Nada mais natural do que errar. Por ora, ando observando movimentos alheios, pensando em irreais e sutis separações e desencontros. Brincadeiras de adultos. Como crianças, continuamos correndo contra o tempo, tentando inibir esse tal futuro que nos apavora e nos consome. Morrer já não parece novo. A proximidade do fim nos envelhece. Rugas a mais, sentimentos a mais, tempo de menos. No relógio, ponteiros incessantes girando em torno de nossos umbigos. Vida que segue. Nada como a vida para aplacar a morte. Hoje, sinto saudades doídas das crianças que já não são. Penso em meus sobrinhos, correndo, felizes, para conhecer o novo presente. Presente é hoje. Saudade estranha da criança que fui e não conheci. Na cabeça, o tempo. Tempo demais para acreditar, tempo pequeno para se desiludir. Tenho refletido sobre trocar de profissão. Custo a admitir, mas acho que os dedos andam me dando mais alegrias do que os palcos. Decepções. Escrevo porque preciso. Desisto porque me entendo. E, dia após dia, vou elaborando esse labirinto sem saída aparente, este turbilhão de idéias que resumem a existência. Sentada no parque, sozinha, atrás de mesa enorme. Sozinha comigo mesma. Vou brincando de ser o deus da sintaxe. Vou mexendo nas palavras e guimaraneando verbetes. Escrevo o que sinto, não dicionario. Por vezes, duvido das letras e das frases. Elas não importam. Fonema por fonema, o texto se faz sólido; construindo, por si, seu completo significado. Estou travada. As cenas, perfeitas em pensamento, recusam-se a ganhar vida no papel. Não há ilusão real. Pingo por pingo, a enxurrada de letras se faz cachoeira, tocando, gelada, corações que andam em pedra. Letras são a matéria da alma. Metafísico? Não sei. Acredito nos livros e nas poesias. Duvido dos poetas e escritores. Indivíduos são veículos das línguas. Não são a arte. São a torneira por onde ela escoa incessante; por vontade própria. Hoje cantarolo uma música que não conheço. Brinco de adivinhar o futuro e de me iludir com ele. Hoje esqueço o prazer e procuro um amor. Amor calmo, como já o disse. Tenho duvidado das coisas reais. Tenho sonhado com aquele cabelo desgrenhado. Mas enquanto os carneirinhos não param de pular a cerca, prefiro manter os olhos bem abertos. A realidade me afoga. Mergulho em dias calmos de sol e brisa fresca. Firmo parcerias importantes, brinco de acreditar. Porque por nada, sem nada, o jogo da vida se desfaz. Sem querer, sem razão. Porque o último pode ser hoje, e o dia parece lindo. Carpe diem. Aproveitem.
domingo, 4 de outubro de 2009
Trava
É que às vezes os dedos travam. Não conseguem tecer sutilezas; só cruas estampas da realidade. Perdoem-me. Mas vazios também são preenchidos de formas. Voem comigo. Bailem em mim. Eu, por ora, preencho os espaços brancos com luzes coloridas. Tenho sinalizado caminhos sinuosos. É que passos às vezes são apenas impulsos. Ímpetos. Vetor vertical e agressivo, que pode chegar a lugares irreais. Não se neguem a beleza da verdade. Nada melhor do que a auto-sinceridade. Tenho me mentido com uma freqüência encantadora. Perco-me em minhas próprias estórias de criança. Bailo. Os dedos, como dois pés esquerdos, mexem-se à força. Andam fazendo doce. Deixam de melar as palavras. Não sei ainda o por quê, mas as letras me parecem incrivelmente distantes. Cada uma sozinha, em seu devido lugar. Por isto, música. Por isto, poesia. Porque quando as máquinas param, e as engrenagens deixam de se encaixar, nada melhor que óleo. Perfumes para a alma. Na brisa gelada do mar, ainda há alguma esperança perdida de uma orquestra em uníssono. Cantamos o hino de nossas vaidades. Ainda chegaremos lá. No pote de ouro, do outro lado do arco-íris. Por aqui, só cores esparsas. Creiam-me: estou oca. Nada de relevante para dizer, nenhuma boa cena a ser escrita, nenhum grande amor a me brilhar nos olhos. Apesar disso, a brisa, leve, me acalma. Porque amanhã será outro novo dia. E novos dias sempre trazem novos ares. Respirem fundo. A plenos pulmões. Notícias de outros tempos hão de chegar por aí...
sábado, 3 de outubro de 2009
Quando não dá
Tenho o péssimo hábito de ser abstrata, sei. Mas hoje resolvi usar todas as letras, colocar todos os pontos. O que acontece é que não acontece. Não sei se já aconteceu com você, mas, comigo, já aconteceu de eu ter que pedir para parar. Não que estivesse ruim. Era excelente. Tão bom que meu corpo não tinha condições de agüentar. Então pedi para sair, como quem desiste de batalha vencida. É que tem horas que ou o cara coloca a cueca e vai embora, ou lhe coloca uma aliança no dedo e fica para o resto da vida. No caso específico, ele se vestiu e se mudou. Para mais longe do que eu podia imaginar. Mas, agora, me vejo em situação inversa. Sou eu que estou pegando as minhas coisas e saindo pela porta. Desculpa, mas esta efervescência que aconteceu em você, não aconteceu em mim. Simplesmente não aconteceu. Eu não tenho culpa. Você não tem culpa. Simplesmente não era para ser. Sei que é difícil aceitar, mas eu, infelizmente, tenho dificuldades em dizer não. Adoraria lhe sorrir mais uma vez. Mas não me é possível. Ao escancarar-lhe os dentes, verteria lágrimas em mim. Não temos culpa. Eu já estive do outro lado, creia. E ele foi embora sem ao menos uma explicação. Por isso tento me abrir. Para aplacar uma dor que - eu sei - é inevitável. Não me leve a mal. Me leve à toa. Os controles não são movidos à pilha. Nem sempre a dramaturgia segue a pulsação. Peço desculpas pelo sofrimento, talvez ele pudesse ter sido evitado. Mas não pude reger a orquestra que tocava em ti. Em mim, vários músicos se reúnem. Tenho ouvido ruídos. E não é porque não é valsa que você não me tocou. Outros atores têm percorrido as minhas fantasias. Mais reais. Peço que se conforme. Talvez outra personagem venha a preencher seus diálogos. Mas não eu. Desista-me. Desata-me. Sou opinião e cenas. Mas em você, não sou real. Cachos morenos e albinos percorrem meus pensamentos. Ando não gostando da reteza. Desculpe-me. Decupe-me. Há de haver alguma explicação. Acredito no acaso. Mas não posso querer-te, assim como não posso cobrar um amor vadio. Decifra-me. Desista-me. Sou de outros olhos e de outra dor. Sou de ninguém e sou de outro alguém que me tocou. Não você. Não agora. De outro. (In)felizmente.
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Visões
É como um mar revolto – disse – e se calou. Durante horas permaneceu num silêncio incômodo, deixando que suas palavras ecoassem pelas paredes imundas daquele quarto de dormir. Ela não se mexeu. Não entendeu o que ele havia dito, e não o quis entender. Bastava. Não agüentava mais as lamúrias sonolentas e inacabáveis daquele que um dia fora seu Homem. Só lhe restava os trapos. Nojentos e marrons, como aquele leito fedorento em que se encontravam. Nas janelas, palavras a giz desapareciam aos pedaços. Lembranças de um tempo que fora bom. O passado é um incômodo presente; uma linha cortada preenchida por memórias inventadas e imprecisas. Não queria se lembrar. Ao seu lado, nu, jazia aquele corpo masculino desprezível, ainda sedento de seus suspiros. Não queria mais, era apenas isso. Não queria ele, nem ela, nem aquele lugar. Queria inexistir. A morte era pouco para quem já se aproximara tantas vezes. Desafio ridículo. Nos pulsos e na alma, as cicatrizes ainda sangravam como gangrenas incuráveis. Desistir não era o bastante. No ventre inchado de algumas semanas, a perversão cruel daquele a quem chamavam Deus. Não acreditava em destino. Apenas em acaso. Olhando com outros olhos, o quarto parecia limpo, as cortinas bem colocadas, os lençóis brancos cheirando a alfazema. Olhares. O cheiro de esgoto lhe invadindo as narinas, e aquele sorriso ao seu lado exalando eucalipto. Nada mais desprezível. Tentou quebrar o silêncio com algum ruído calculado, mas os membros permaneceram inertes, tocando de leve a sua pele e aquecendo-a com aquele fresco calor. Desprezível. Enquanto engolia – muda – o choro, pensou diversas vezes em sangue. Era natural. Mas o suor que lhe escorreu dos olhos parecia um triste indício de que não seria capaz. Não mais uma vez. Passou, incólume, pelos calafrios que lhe percorriam o corpo e tentou engolir o vômito que, a essa altura, já lhe subia pelo peito. Tudo em vão. Ao seu lado, o Homem. Quente e febril como qualquer outro homem. Com seus cabelos negros e lisos escorrendo por sua coxa branca. Com a respiração ofegante de bicho acuado. E só. No mais, apenas o silêncio. E o barulho das ondas febris, atirando-se para a morte na areia da praia.
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
Desencontros
Relutando ainda um pouco em escrever acompanhada. Gosto da solidão. Dificulta-me olhares alheios e curiosos, tentando, sorrateiros, descobrir o que se passa em minhas mãos. Não sei do que será. Escrevo o agora. Esse agora fugidio que escorre, incessante, pelos ponteiros da parede. Por dentro ando em calma. Me sinto cruel. Não tenho culpa. Não há culpados. Não foi me dada a sorte de escolher o que se passa comigo. Em mim. Pensamentos acontecem. Pulsações se impõem. Sou apenas um corpo. Mas somos adultos, sabemos. Estamos expostos ao risco. Cabe a cada um lidar com seus fantasmas e seus castelos. Tenho os meus. Medos. Não julgo olhos alheios, mas sinto-me julgada pelo desprazer de ser. Sou. Sinto. Mas des-sinto e des-sou a todo instante. Metamorfose. Imperfeição. Sou apenas o que meus sentidos fizeram de mim. Perco-me e acho-me a cada mergulho profundo, a cada silêncio conciso. Dor. Não faço brilhar olhos por querer. Não os quero sangrar. Mas sou pimenta. Ardo em outros como cortes em mim. Corto. E o sangue me enlouquece aos poucos, fazendo de mim feridas alheias; grandes gangrenas pessoais. Sou praga. Toco e apodreço. Pedra, ouro. Contos de fadas que terminam no para sempre. Mas sempre é utopia. Irrealidade. Não existe o que não deixará de ser. Osso. Pó. Tenho pena das coisas que deixarei de levar. Sentimentos ricos, sorrisos brilhantes. Mas não posso obrigar-me a querer o que não é meu. Não cabe a mim impingir poesias. Sinto. Sou. E tudo ao inverso também. Descontrole. Se sábia, assim, fosse, teria comigo uma mala de idéias. Saco de toda ilusão. E vestiria, faceira, a doce fantasia da felicidade. Máscaras e máscaras de ilusão. Mas a vida é desencontro. Tempos errados, cortes secos. Não há edição. Sou feita de coisas ruins e feias. Coisas boas e sutis. Um paradoxo; fiel à minha verdade, por mais mentirosa que seja. Sou refém do meu sorriso e da minha consciência tranqüila. Gosto do travesseiro. Os balões são apenas coisas que me ocorrem. Carneiros. Não há como frear. Sou rodas ladeira abaixo. Sou dedos em pleno vôo. Sou o que o mundo me tornou. Dura, seca e transbordante. Paradigma. Paradoxo. Erro fatal; purgatório. Caldeirão de letras a borbulhar. Sentimentos incoerentes e descontínuos. Sou o que sou, e não o que deveria ser. Triste ser. Humana.
domingo, 13 de setembro de 2009
Alcoolvalsâmico
Procurando pela casa algo doce para comer. Mas só há morangos. E morangos, no momento, não agradam meu paladar. Morangos são restos insossos do sangue que já suguei. Nada mais doce. Bêbada de alcoóis diversos, pergunto-me se vale a pena continuar essa existência insípida. Nada como água. Ainda não sei por que, mas os cachos morenos e deliciosamente desgrenhados ainda não saíram do meu pensamento. Tenho fuçado vidas alheias ao meu bel prazer. Nada que se reclame e se admire. Apenas mais um exercício fugaz de quem não tem o que fazer. Pergunto-me, descrente, como impor a aproximação, mas nenhuma resposta sutil me vem à cabeça. Quero. Desejo. Mas ainda não sei como agir. A proximidade ao longe me tornou ainda mais distante. O contato que parecia simples complicou-se, tornando meus anseios ainda menos palpáveis. Se ele está lá, e eu aqui, desconfio qual seria a grande distância. Mas ela não há. Estamos próximos no descuido. Sabe incerto das minhas fadigas. Penso em telefonar, mas o numero não me ocorre. Nunca o soube, é verdade. Mas minha ânsia de falar parece absurdamente coerente e necessária. Aguardo oportunidades. Loucamente. Penso, sem saber como demonstrar, mas penso, como qualquer apaixonado pensaria. Ando com a solidão. Quero o abraço certeiro e o sorriso conciso. Apenas mais um olhar vacilante. Adoraria revê-lo. Penso-sonho em tocá-lo. Mas suas sonoridades me escapam por entre os dedos, fazendo com que cada nova nota pereça, enfim, o prelúdio de um novo amor. Que custa a passar. Já há absurdos na nossa historia. Meses e meses de criações desavisadas. Quero botá-las à prova, mas novos rumores resistem às condições do passado. Quero sorrir ao seu lado. Não custaria nada estender a mão, mas os braços pendem soltos, amarrados a alguma algema invisível. Se os dedos passeiam livres, por favor, estenda-me as mãos. Já não posso mais conter o maremoto que me arrasa, e que me leva, febril, de encontro a você. Já não me basto. E não quero parecer leviana pela velocidade assustada dos compassos em meu peito. Mas penso em ti desnudo, como quem baila na areia o tango dos que já não vão. Traga para mim um punhado de mar. Valsa, faceiro, suspiros para mim. Criança. Sorri-me com a alma. Que a vida eu mesma me encarrego de lhe dar.
terça-feira, 8 de setembro de 2009
Brainstorm
O dia amanheceu escuro, como uma noite sem estrelas. As cinzas pesadas entrando pela janela. Um ruído de mundo desabando sobre algum lugar em mim. Por dentro, apenas a vontade de ficar um pouco mais, como é de praxe. Por fora, a vida gritando sedenta, afogando-me por entre a realidade. O dia amanheceu escuro e minha alma reagiu como noite, num silêncio acanhado de quem não sabe aonde ir. As palavras presas por entre os dentes. O sorriso fervendo apenas nos olhos. Os dedos com vontade de agarrar pedaços alheios. O coração com medo de sangrar mais uma vez. Sem pressa, nada do que a cabeça programou torna-se real. Tudo mentiras pensadas. Tudo verdades queridas. Os dias se esquecem de acontecer nesse vendaval de cenas. A linha terminando num anticlímax febril. Pensa nele, nos outros, em si. Mas apenas pensa, e por não agir sofre. Os dedos bailando valsa num teclado também em breu. Silencio, calma, a vontade de gritar. O desejo arrebatador de dizer coisas insanas que rondam meus pensamentos. Aqui, tudo é mentira. Aqui, tudo é a mais pura verdade. Prostituo as letras a meu favor, jogo com os fonemas e com a sintaxe. Brinco de escrever. Mas no meio de tudo, no fim de tudo, tem eu. Perdida entre as letras assombradas, que formam palavras ao leo. Tudo em mim. Ao longe, gritos loucos de alguma dor. Por perto, sussurros no ouvido de total prazer. Penso nos cabelos que não posso alcançar. Mais uma vez, esperarei em vão por brancos sorrisos de paixão. Ainda mais uma vez, deixei para trás óculos e jeans. Mas ainda trago a moradia comigo. Casa de algumas frases. Desengano. Bailo. Brinco de novo de não dizer nada com nada e ainda assim fazer algum sentido. Algum sentido há de ter. Na minha cabeça, ou na de quem assiste febril ao desenrolar das linhas tortas. A vida se escreve letra por letra e, às vezes, a gente desentende o significado das palavras. Correndo por entre os corredores vazios e perdendo-se nos labirintos da falta de coragem. Ando não sabendo o que dizer. Ainda tenho vontade de olhar. Às vezes apenas os olhos são capazes de significar a contento. Aurélio teria inveja. Por isso, tampo agora as pupilas para mais uma noite de sonhos negros. Amanhã, acordarei sob um céu cinzento, com gosto de lágrimas, e sem pernas por onde enroscar. Acordarei sonolenta, caindo novamente na rotina desesperadora de sorrisos e cifras. E, se eu tenho que me render a elas, só espero que, amanhã, elas sejam musicais. A melodia anda escorrendo por minhas orelhas como mel. Prestes a se açucarar. Amedrontado (e ameaçado) por esta chuva que despenca ao longe. E que espera, paciente, o dia de chegar aí!
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
Tu
Acordei com o cheiro suave de terra molhada e o gosto salgado de lágrimas frescas. Chuva no tempo e na alma. Por dentro, uma tranqüilidade inquieta, que teima em anunciar algum grande acontecimento. Em vão. O dia passou e as gotas secaram. Agora, só resta a espera. Em algum lugar, nuvens se reúnem anunciando uma tempestade. O corpo se incomoda. Nenhum rastro de esperança ou dor. Nenhuma vontade surpreendente ou expectativa fundamentada. O que há é vento, uivando pelos ouvidos o som de novos tempos. Tudo incerteza. Da janela virtual, o sol desponta ao longe. Tudo uma grande irrealidade. Os sonhos se misturam nesse paraíso efêmero de sentimentos e saudades. Os acontecimentos se atropelam. Somos o silêncio e a vontade. Por dentro, as amarras vão se soltando aos poucos, deixando pequenos recalques pelo caminho. Já não me importo com o que se passa em cabeça alheia. Tenho decidido gostar um pouco mais de mim. Na desfaçatez da indiferença, um leque promissor de possibilidades. Tenho um sorriso no rosto. Disfarçado entre a chuva, é verdade. Mas ele insiste em aparecer. Tenho parecido invisível aos outros. Mas planto sementes carinhosas que, com algum cuidado, renderão bons frutos. Tenho planejado aparições despretensiosas e sonhos palpáveis. Vou me escondendo do cotidiano. Na cabeça dele, sei, ainda há algo de misterioso, uma interrogação. Na minha, reticências. Não consegui ainda penetrar universo tão distante. Mas caminho lenta, com o cheiro suave de terra molhada a invadir meus sentidos. Transbordo pelos olhos. Alguma coisa que não me parece palpável cisma em soprar canções aos meus ouvidos. O que tenho pensado é música. Preta. Por enquanto, apenas os poros abertos e a pele atenta. Quero a proximidade do calor. Por enquanto, apenas esse meu canto, perdido no espaço, esperando ecoar. Não sei se há ouvidos para a minha voz. Não sei se alcanço o sorriso que eu quero agarrar. Sei que os dias passam sedentos, e o que era para esmorecer cresce lento e contínuo, como praga a enraizar-se nas veias. Falo bobagem, penso besteiras. Mas solto meu grito neste mar de letras. Rio engraçada do sorriso que atravessa esta tela. Eu também estou aí. No olho de quem lê. Nos seus olhos, meu foco, embora você ainda duvide. Não se sinta convencido, apenas solte sua voz. No mar, hoje a noite. Amanhã em mim. E não pense em descaso. Viajo, por isso não fui. Semana que vem estou de volta, e ficarei feliz em aparecer. Se você deixar. Se você quiser. A primeira nota foi minha. No caso, a segunda. Mas não entendo nada de melodias. Apenas de enredos. Escreva seu personagem. Eu, hoje, já decidi o que encenar. E te convido, ainda um pouco sem graça, a subir no meu palco. Seja bem vindo ao meu drama. Ainda temos muito o que criar.
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terça-feira, 25 de agosto de 2009
Efêmeros
Uma saudade fugidia me pegou hoje de surpresa. Saudades de algo que nunca soube. Acordei vendo passarinhos verdes. Como há tempos. Nada de novo, nenhuma nova brisa. Apenas um olhar para dentro renovado, um suspiro profundo de saber que se pode haver. Complexo? Conciso. Nada do que quis aconteceu. Mas eu aconteci. Em mim. Voltei a visitar-me e a me sorrir. Hoje acordei com gosto de cigarros na boca e um cheiro de pétalas na alma. Lavada com espumante e alguns chopps. Ontem deixei um pedaço do passado para trás, me desprendi de umas amarras. E descobri que pode haver outro. Assim, sem querer. Pode haver outro ainda mais interessante. Outro sorriso, outro toque, outra idéia. Pode ser bom. Mas não há nada. Nenhuma nova brisa. Apenas estas rosas se desprendendo dos meus cabelos e traçando uma trilha leve no chão. Para ser seguida. Com passos calmos, vou lembrando os caminhos que eu mesma criei. Migalha por migalha. Sem fome demais. Mas hoje os pássaros amanheceram cantando Tim Maia, e eu me perguntei por que é que eu não tocava nenhum instrumento. Meu coração é uma excelente percussão. E fui no ritmo. Neste meu ritmo de hoje, de espelhos quebrados e faces embaçadas. Por enquanto, apenas uma idéia. Daquelas que fazem cócegas na boca do estômago. E ainda o medo. Sempre ele, a me empurrar adiante e me mostrar que pode, sim, dar errado. Há sempre a possibilidade da falha. Por isso o gozo no êxito. Ando distante, sei. Mas ando comigo. Com as covinhas a pleno vapor. Com os lábios ainda cansados de maldizer, e a língua a ponto de se divertir. Posso me enganar, mas não será o fim do mundo. Não será a primeira vez. As covinhas se mostrando cada vez mais divertidas. Peles a centímetros de distância trocando temperaturas levemente impróprias. E eu ainda me arrisco. Sem nada, sem perspectiva. Apenas com o sorriso. E o olfato. Alguma coisa inexplicável ou hormonal. Deus é química? Acho que me entorpeci. Alguma coisa está diferente aqui dentro. Os passarinhos amanheceram cantando hoje e, mesmo depois do ocaso, a melodia continua em meus ouvidos. Devo ter enlouquecido, mas é de praxe. Nada como uma esperança nova a despertar os sentidos. Nada como uma grande bobagem a impulsionar a alma.
domingo, 19 de julho de 2009
O fim
Amanheceu. E o que o tempo já anunciava como um fatal destino, enfim, aconteceu. Era previsto. Ninguém se espantou. Mas quando a porta fechou atrás de si, e o quarto ficou vazio, algo de estranho se estabeleceu. Ainda não era exatamente uma solidão. Nem um arrependimento, nem alívio. Era apenas uma sensação nova. Diferente. Ao olhar para as paredes, sentiu que há anos não as via. Eram paredes, enfim. De tijolo, cimento e tinta. Paredes que sustentavam seu castelo, muralha infinita de sua ilusão. Em um instante, tudo ruiu. Descascadas, as paredes eram o retrato fiel do abandono em que se encontrava. Havia se esquecido de si mesmo há tempos. Por isso, quando tomou coragem para se levantar da cama, assustou-se com as rugas que viu. Não estava mais feia – em absoluto. Estava mais coerente. Cada vinco esculpido ao longo dos anos representava uma dor, uma decepção. Agora, aquela metade do armário vazio a fazia lembrar de tempos felizes. De dias que tinham cismado em se perder pela memória. É a convivência que mata a sutileza. Tinha deixado de dizer tantas coisas. Tinha dito outras das quais não queria se lembrar. E, depois de tantos anos de ressentimento e angústia, enfim, o vazio. A cama, o armário, o corpo. Em tudo faltava um pedaço. Uma parte essencial e inerente. Não havia percebido sua necessidade durante o tempo em que, com calma, arquitetou com receio a delicada estrada do fim. Nunca soube aonde ia chegar. E agora, depois de tudo, concluiu que sabia menos ainda. Ansiava o desfecho. Mas na vida – ninguém lhe dissera – as coisas não terminam depois do fim. O fim é apenas um recomeço; uma nova chance; uma inauguração. Estava fechando as portas para fazer uma limpeza geral, intensa. Água sanitária em todas as lembranças. Alvejante pros sentimentos. Em breve poderia abrir suas gavetas sem tantos sustos, sem sobressaltos. Estava em busca do tempo, que cismara em lhe escorrer pelas mãos. Não sabia o que seria de si. Era ele quem se encarregaria de dizer. Por hora, só olhava suas raízes envelhecidas refletidas no espelho, e seus olhos inchados, cansados de tanto brotar. Por um instante a paz. Fugidia. Só lhe restava agora tomar uma decisão. Mas as opções eram muitas, e ela ainda não sabia por onde seguir.
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sábado, 11 de julho de 2009
Cigarros

Oito cigarros. Oito cigarros figuram num maço comprado há dias. Oito cigarros que cismo em não acender. Tenho parado de fumar, como sempre. Por isso, agora, os oito cigarros me fitam inquisidores e gracejantes. Sete cigarros. São sete os que me olham. Um já descansa entre os lábios, embora ainda apagado, e levemente úmido. Seu cheiro invadindo minhas narinas. Desejo. O isqueiro que não deseja acender. Faísca. Fogo. O cigarro queimando de leve, e a fumaça subindo faceira. O vício. Precipício inacabado, medo do eterno fim. Medo da dor. Fumo porque me é inerente. Porque me traz certo alívio, e porque me lembro das repreensões. Fumo para me sentir completa sem ele, para sufocar o vazio que ele deixou dentro de mim. Hoje me lembrei. Falei um pouco, senti saudades. Hoje pedi perdão pela minha audácia. Perdão a mim mesma. Desculpas pelo precipício. Arrependo-me. O cigarro, já pela metade, ousa me lembrar o quanto sou fraca. O quanto vacilo. Entre as opções, a solidão. A vontade do outro inacabado e imperfeito. Ansiedade. As unhas vermelhas a combinar com os saltos. Altos. A esperança e a realização. O sorriso, enfim. O cinzeiro... Nada como duvidar de si mesmo...
sábado, 4 de julho de 2009
Caminhada
Com um sorriso nos olhos, despediu-se de toda dor e partiu. Não parecia triste. Não era de remoer recordações. Mas no fundo da alma, lhe pesava uma mágoa de se sentir ingrata; dessas que cismam em nos agarram em momentos inoportunos. Tinha feito o que podia, tinha certeza. Mas não tinha feito tudo. E era isso que lhe doía. O fardo de não ter feito o impossível. Sabia que sua caminhada seria longa. Ela estava apenas dando os primeiro passos. Mas quando se despediu da dor, com aquele sorriso nos olhos, teve a certeza que deixara muita coisa para trás. Os dias corriam ligeiros. Por vezes, ela mesma se perdia em sua existência, mergulhada em questões cotidianas de baixo valor sentimental. Toda aquela rotina lhe consumia. Dia após dia, fazendo as mesmas coisas, brincando os mesmos jogos. Por dentro, levava a esperança de um amor qualquer, perdido, que cismava em se agarrar em qualquer figura masculina que lhe parecesse razoável. Andava com um certo tipo de carência. Não sexual. Afetiva. Mas sabia que também isso era parte do percurso. A cada trecho que vencia da estrada, tinha mais e mais certeza de seu destino. E, com mãos e peitos, cortava certeira as intempéries do acaso. Divertia-se sofrida. Não era dada aos prazeres corriqueiros da malandragem. Sabia muito bem sua função e administrava sua culpa com mãos de ferro. Deixava-se, por vezes, se perder em seus pensamentos. Gostava de se escutar. Pouco a pouco, com cuidado, conhecia sedenta os territórios mais longínquos de seu próprio ser. Visitava com freqüência os becos de seu submundo. Neste momento, estava sozinha. Por motivos diversos, é fato. Mas nenhum motivo era maior do que sua própria vontade. Porque quando sentiu que já não produzia mais, foi embora. Não sem saudades, mas com um sorriso nos olhos. No rosto. E à medida que caminhava, conhecia, certeira, todas as possibilidades de seu futuro-presente. Confrontava-se com as possibilidades de escolha e se amedrontava delas. Sabia que, em algum momento, deveria deixar algo para trás. Era certo. Mas nunca soube muito bem ponderar os prós e os contras de seu viver. No momento em que se despediu de toda dor (e partiu sem olhar para trás) estava feliz. Sabia que estava escrevendo, a bico de pena, sua própria história. E por isso caminhava lenta, como a tinta que vai, aos poucos, borrando o papel de significados. Caminhava com o peso do dia, e com a leveza da alma. Estava em paz. O caminho ainda era longo. Os dias do porvir seriam intermináveis. Mas a jornada se faz pelo caminho e não pela chegada. Então ela caminhava lenta. Olhando calmamente as flores da encosta. Sorrindo das pequenas sutilezas, e das grandes ironias. Ela estava em paz. Sonhando com o que já foi, e com o que ainda haveria de ser.
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sábado, 20 de junho de 2009
Enquanto
Enquanto as folhas caiam no chão. Neste breve tempo, enquanto as folhas bailavam ao vento, é que tudo se deu. Percebeu um pouco depois. Não imediatamente. Mas sentiu, à flor da pele, um leve arrepio gelado. Foi tudo num segundo. Num só instante. Enquanto as folhas se desprendiam do alto e chegavam, lentas, àquela superfície molhada. Não sabia muito bem o que estava fazendo ali. Ventava forte. Fazia frio. E mesmo assim; mesmo com tudo voando ao seu redor; mesmo com o vinho lhe nublando a alma; mesmo assim. O arrepio lhe percorreu a espinha, de baixo para cima, num átimo. Do lado de fora do vidro embaçado, a chuva. Sentiu-a como lágrimas, talvez suas, a se desprenderem calmamente de olhos já cansados. Já descrentes. Olhava fixamente. A janela, a taça, o palco, os olhos. Algumas notas cismando em povoar seus pensamentos. Algumas palavras. Tudo no mais perfeito silêncio. Harmonia. E de olhar, despreocupada, pro lado de fora, é que percebeu. Naquele instante. Entre o salto da folha, e sua chegada macia ao chão. Entre um gole e outro de vinho. Percebeu que o tempo passava, e que ela se ia com ele. Que estava desistindo, apesar da esperança. Percebeu que mudara. Mas foi naquele breve instante – não mais. Naquele limite tênue entre a decisão e a ação. Naquele suspiro. Foi ali que tudo se deu. Letras cantadas no tom exato, na melodia correta. Letras voando pelos ouvidos e poluindo sua alma. Naquele instante. Enquanto as folhas caiam e os olhares se cruzavam. Enquanto a música era cantada e sentida. Naquele exato instante. Nem um minuto a mais. Ela viu acontecer. Como quem assiste a um filme. E viu que não era possível voltar atrás, que aquele arrepio a lhe congelar a espinha duraria o tempo necessário de uma paixão. Tudo isso ela viu; mas sem querer. Porque não lhe foi possível fechar os olhos. Porque, mesmo se os fechasse, as imagens a povoariam por dentro, como nômades a vagar. Não pôde conter, embora tentasse. Mas naquele instante; naquele breve instante; teve certeza de si. Viu-se em olhos alheios, perdida em palavras escritas por outros dedos; em canções de um amor tardio. Viu-se sorrindo de dor e chorando de prazer num futuro que custava a chegar. Viu-se. Como nunca havia se visto em outros olhos. Num instante fugaz, entre a janela e o microfone. Entre a boca, e os ouvidos. Enquanto tudo, as folhas. Sempre as folhas. Bailando, lentas, o compasso da ilusão. Voando suaves por entre olhos estranhos. Tentou evitar, mas não pôde. Teve a sensação de que o tempo acelerava, enquanto ela ficava para trás. Estava parada. Completamente paralisada. Enquanto as folhas caiam, e a música lhe acariciava os ouvidos. Enquanto o vinho corava suas entranhas, ferino. Desviou o olhar, insistente, mas aqueles olhos continuavam ali. Em algum lugar, dentro. E, naquele instante, teve certeza que o inverno jamais chegaria. Que ela continuaria acorrentada às grades daquele outono chuvoso. À lareira, ao cachecol, e àquele sorriso melancólico, contido num instante de olhar.
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