segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Drama

Há uma linha tênue que separa a sanidade da loucura. Hoje ultrapassei o limiar. Vi o outro lado de perto. Pensei em morrer. No canto da pequena sala gelada, o medo as solidão. Do lado de cá, uma vontade de dormir infinitamente. Depois de sorrisos deliciosos e momentos de extrema frustração, todo o caldeirão borbulhou ao mesmo tempo dentro de mim. Agora, enquanto escrevo, uma letargia nova provocada por altas doses de remédio. Os dedos bailando lentos nos teclados, formando palavras que são, agressivamente, expulsas da alma. Preciso esvaziar os potes. E fechar a tampa. Lacrar esse derrame que escorre do corpo em gotas salgadas. As coisas se configurando de maneiras estranhas e inexplicáveis. Sonho. E nos sonhos, aprendo com calma a delícia da realidade. Preciso com certa urgência de um psicólogo de plantão. Para quem eu possa ligar com calma para discorrer sobre as sombras do peito. Por ora, tenho vontade de derramar toda aquela caixa dentro de mim e de sumir do mundo. Andando sobre pedras que não são minhas, trilhando caminhos estranhos pelos quais eu não gostaria de passar. E os dias me atropelando como tratores grosseiros e cruéis. Tenho sono. E não consigo dormir. Os fantasmas gritando. E sorrindo. Ando de cansada de fazer coisas apenas para agradar aos outros. Mas preciso. E a diferença entre a felicidade e a necessidade está justamente aí. Queria sair correndo por uns dias. Umas semanas. Brincar de me esconder em Buenos Aires – terra conhecida, amiga, e viável. Como eu queria sumir. Deixar de dar noticias, de dizer como eu me sinto. Vontade de calar os celulares por um instante, por toda a eternidade. Ah, vontade! De acordar depois de uma semana e descobrir que o meu mundo já chegou a seu devido lugar, que as coisas estão, enfim, no prumo. Vontade de pintar, de escrever, de criar, de dormir, e dormir, e dormir. É. Acho que preciso tomar meu tarja preta. O quanto antes. Rosa. Bem rosa. E calar os telefones. Preciso calar os telefones e as vozes que não param de ecoar na minha cabeça. Parar. Preciso cessar a derrama que não se estanca. Preciso de colo e de casa. Preciso de mim. Urgentemente de mim. Mas não consigo me encontrar. E eu? Onde estou???

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Revival

Estava com a sensação estranha de descobrir-se em velho amor. Borboletas a incomodar-lhe a calmaria. Eram dias claros que passavam lentos. No fundo, a velha sensação de sentir-se a imaginar. Os homens eram, de fato, sua melhor invenção. Assim, fechou os olhos no exercício diário de criar encontros, e encontrou-se lá, ainda ao seu lado. Era uma sensação antiga, já o disse. Mas a familiaridade do encontro afigurou-se como uma recordação doce, que teimava em querer se repetir. No peito, a certeza de não ter vivido todos os momentos. Arquitetou pequenos planos de fuga, mas acabava sempre por encontrar-se de novo lá: fumando um cigarro no pátio interno daquele apartamento térreo, e naqueles braços, agora ainda mais ternos e intensos. Enquanto, confundia-se nas ilusões. Misturava realidade e sensações, e criava, sem querer, um jogo de acreditar que se tornava cada vez mais palpável. O telefone ainda a figurar-lhe na agenda. Suas palavras intangíveis ainda a ecoar-lhe nos ouvidos. Então era noite naquele quarto vazio e ela, com suas dúvidas, acreditava naquela certeza inata de que dessa vez seria diferente. Sabia que suas atitudes atrapalharam o passado e, por isso, tecia com cuidado os acontecimentos do porvir. Os dias passavam lentos. E ela, utópica, saboreava cada pequeno novo dado que lhe surgia em suas viagens introspectivas. Alguma coisa a perturbar-lhe a boca do estômago. Lembrou-se então dos negros cabelos e dos corpos dançantes que se encontravam com assustadora freqüência em verões já idos. A antiga memória afetiva já rompera o ano, fazendo dos encontros inesperados pequenas doces pérolas do acaso. Saboreava. Por isso, enquanto criava ambientes oníricos de intensa beleza, sentia como se os acontecimentos conspirassem a favor do encontro. Madrugadas de insônia convergiam e mecanismos cibernéticos os aproximavam. O fato é que se gostavam. A despeito do tempo e do amor romântico. Tinham olhos brilhantes e sorrisos sutis. Estavam, de novo, se descobrindo. De maneira profunda, intensa e talvez até irreal. Ela ainda não sabia o porquê, mas o como se lhe apresentava de maneira incisiva. Faltavam apenas mais uns poucos dias para colocar sua ilusão à prova. De novo ali, à beira daquela baía que tantas vezes os contemplara, embaixo das poucas estrelas e à luz daquela lua cheia. Tão familiar quanto aqueles olhos negros. Tão desconhecido quanto aqueles velhos corpos...

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Do Jardim

E então o dia amanheceu claro, e eu me perguntei por que é que eu ainda estava deitada. Levantei-me com a calma dos dias ociosos, e resolvi dar-me um tempo para sofrer. Embaixo daquele sol forte, na solidão do apartamento vazio, pensei por alguns instantes na necessidade de se sobreviver. Não era como estava acostumada, não era exatamente o que eu queria fazer. Entretanto, debaixo daqueles quarenta e quantos graus, só conseguia pensar em como o dia terminaria. Possibilidades infinitas de se romper a inércia e começar a escrever uma nova história. Por trás de tudo, uma certeza inata. Não era para aquilo que eu estava ali. Não podia perder o foco ao focar-me em interesses alheios. Estava confusa. Algo como uma necessidade vital de um terapeuta assolou-me a alma, dando-me a total certeza do fracasso. Ainda era pouco. Estava me enterrando com as próprias mãos e precisava, a todo custo, interromper este processo de erosão interna que embrulhava meu estômago e embaralhava minha visão. No fundo, a calma inesperada e doentia de quem conhece o roteiro dos dias. Estava ansiosa. Mais uma vez. Com saudade de amigos próximos que se tornaram distantes, e com vontade dos amigos distantes que se aproximavam com o passar dos dias. Domingo teria almoço e conversa. Sorrisos e cumplicidade. Não sabia o que aconteceria até lá. O que sabia é que o tempo passava ligeiro, e atropelava-me os pensamentos. Por dentro, um fogo ardente e aquela vontade inextinguível de brincar de ser outrem. Um sufoco assustador de me pensar responsável e capaz, e de assistir de longe a vitória que também era minha. Ossos do ofício. Estava atordoada. Mais atordoada do que nunca. As pequenas surpresas me massacravam como notícias mórbidas de um terremoto distante. Estava apavorada. E de longe, ao longe, aquela possibilidade latente de felicidade, que teimava em surpreender-me e tentar-me. De longe o diabo e São Jorge, mesclados em um mesmo painel. Por isso, quando acordei suada do calor da noite, e percebi que o dia já raiava enfim, fiz uma prece rápida para que as coisas encontrassem seus devidos lugares, e que a tormenta se acalmasse em mim. Fechei os olhos e pensei na dor e na delícia de ser. E sofri calada a solidão da tarde que caía, pedindo, em silêncio, por flores mais vermelhas e mais cheias de espinhos. Para que eu pudesse, em breve, me ferir e me curar ante a beleza do jardim.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Revoada

Trajava apenas uma calcinha quando se levantou assustada, às seis da tarde, para atender a campainha. A visita dele, embora não combinada, já era prevista. Sabia que ele viria mesmo sem ser convidado. Hesitou em abrir a porta naqueles trajes. Mas seus corpos já eram velhos conhecidos e sua nudez, bronzeada do sol daquela tarde, não merecia cortinas. Ele sorriu ao vê-la assim, tão à vontade, e não notou seu leve desconforto com a sua presença. Ela estava encantada por outro homem, que lhe sorria, embaçado, através do espelho de seus sonhos. Não tinha porque dar explicações, mas ao ver aquele homem ali, apaixonado e indefeso, sentiu-se cruel e indecente. Não podia controlar os arroubos do destino. Estavam separados, afinal. Pelo tempo, pela distância e, agora, por outro amor. Não tinha ilusões de amor romântico com sua nova paixão. Apenas queria viver livremente seu platonismo exacerbado. Foi por isso que se sentiu mal com aquela visita inesperada, e aquele olhar profundo e sedento. Não sabia como dizer-lhe que não. Que não mais. Por isso abriu a porta, ainda seminua, e chorou, sem que ele pudesse entender. Abraçaram-se por infinitos segundos e, quando por vontade dele o abraço se partiu, soube que ele a compreendera. Assim. Sem verbos nem mentiras. Olhou-a também com os olhos marejados e agradeceu, em silêncio, pelos momentos que já haviam vivido. Durante alguns minutos, permaneceram se olhando na penumbra da sala, que resistia a se entregar as trevas. Acariciou-lhe, por fim, os cabelos, num gesto quase maternal de extremo carinho. Suas borboletas não voavam mais para ele. E, por dentro daquele homem, uma revoada lhe embrulhava o estômago, trazendo uma vontade doentia de morrer e ser esquecido. Não havia culpados. Haviam-se desencontrado em sentimentos paralelos e delicados, dos quais não tinham controle. E foi quando ele virou as costas para partir que ela sentiu aquela dor lancinante, de quem sabe que fez alguém sofrer. Ainda abraçou-lhe por um instante, colando seus seios às costas dele. Mas ele mais uma vez hesitou. Pediu desculpas, agora em voz alta, e partiu para todo o sempre. Nunca mais voltaram a se ver. Mas sempre que ela se lembra daquele início de noite em seu apartamento vazio, faz uma oração breve e intensa para que ele algum dia lhe perdoe de não poder. E ele, quando se vê sozinho, no escuro de seu quarto, ainda desenha seu rosto em vão, e se arrepende, docilmente, das palavras que não ousou dizer...

sábado, 26 de dezembro de 2009

Agradecimento de anos

E porque tento dizer coisas que não podem ser ditas, os dedos congelam-se na melhor parte da festa. Bailavam nos teclados segundos atrás e, agora, quando tento falar um pouco de mim, interrompem-se repentinamente, puxados por alguma tração absurda que não sei explicar. Sonho com pessoas distantes que eu queria mais próximas e penso como o tempo pode ser implacável. Dizem que ele destrói tudo. Mas ele tem sido sutil comigo. Hoje – aniversário do meu tempo – tenho mais é que agradecer. A vida tem-me sido uma boa amante: cruel e gentil como os melhores. Sou gente que vivo pessoas: e conheço das mais maravilhosas. Tropeço, às vezes, em pequenos diamantes sorridentes. Ando em dia com a beleza. Não tenho o que pedir. Apenas mais sorrisos e mais abraços. Mais ouvidos para poder entender e mais tato para poder ajudar. Em meu mosaico de ilusões, olhos. Sutis e carinhosos olhos, que já me olharam bem de perto, e já pediram para ficar. A vida é partida. Foi Guimarães que disse que viver é muito perigoso – e ele estava certo. Com as peças que me são dadas, aproveito o caminho. Jogo com o que não posso tocar. E embora espere respostas e anseie por direções, agradeço, a todo o momento, pela companhia. Poucas pessoas são tão bem cercadas. Por trás dos ombros, um sorriso incessante: coisas de outro mundo. E, se for esquizofrenia, que mal tem? Ando acompanhada dos melhores. A cada dia, novas bocas se juntam a esta jornada. Sorrisos sem graça e encantadores. Sou refém das reticências. Por isso, com calma, brinco de desenhar estradas assustadoramente belas. Porque sou filha do vento e deixo pegadas para serem seguidas. Porque destruo as pegadas para que a busca seja mais emocionante. Não tenho do que me arrepender. Não há como voltar atrás. Por isso estampo sorrisos cruéis e profundos: sombras de mim. E agradeço pela brisa fresca e pela água abundante. Ando cercada de abraços. Agradeço cada olhar: furtivos e penetrantes. Cada olhar que se fez único e se foi, deixando em mim mais do que uma gota de saudade. Hoje não tenho o que desejar. Mas quero que a estrada se faça mais larga, e que os sorrisos se colem em mim. Hoje agradeço a presença. O sorriso e o abraço. O olhar que ficou para trás. Agradeço aos que passaram; e aos que permanecem. Aos que foram embora por vontade ou por culpa. Hoje revejo as rugas e admiro os traços. Por fora estou envelhecendo. Por dentro, alguma coisa se inquieta como nunca. Acho que reaprendi a ser criança...

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Ecos da noite chuvosa

Estou com um pouco de medo das decisões. Eu sei, temos o direito de ir e vir; mas tenho medo de querer ficar. Ando assim ultimamente: com vontade de repetir velhas versões e de inaugurar novos modelos. Coisas de inconstante. Por isso escrevo, nestes tempos, sobre romances inacabados e amores platônicos. Porque quando olho nos olhos e decido que sim, pode ser que seja para sempre. Aí tenho medo de querer ficar já que sei que você pode querer ir. Coisas de livre arbítrio. Bobagens de adolescência tardia e velhice precoce. Tenho falado bastante das borboletas. E elas, realmente, andam povoando a minha casa. Andam junto comigo. E quando respiro fundo, e penso que, enfim, acabou; elas batem as asas sorridentes, me mostrando que ainda existe outro caminho. Então penso em ficar. Em sorrir mais um pouco, em beijar mais um pouco, em beber mais um pouco. Por ora, confesso, só confio nos cigarros. São eles que me mantêm acordada dos pesadelos que invento. Apesar disso, tenho sorrido com freqüência. E criado, todos os dias, novos roteiros febris das bobagens que me acometem. É que minha casa de bonecas desmoronou e dela surgiu um castelo sólido e iluminado. O castelo sou eu. E, por mais que eu tente me convencer que não, quando olho nos olhos e sorrio um pouco mais, tenho vontade de ficar. Com você, em você, por você. Porque você foi, e eu continuo aqui. Com alianças envelhecidas envolvendo meus dedos. Uma depois da outra. Mas, sinceramente, não estou querendo casar. Desculpa se te enganei. Faz parte de mim. Eu minto às vezes. Te engano para me colorir. Sou um livro de criança perto de uma caixa de canetinhas. E meus braços são longos! Peço desculpas pelos meus traços. Mas estou feliz. As covinhas estão trabalhando bastante. E, ironicamente, não ando brincando de ironizar. Tenho, sim, medo. Um pavor profundo e infantil de querer ficar. De te olhar nos olhos e querer desdizer tudo o que eu disse. De te cobrar uma decisão qualquer. Mas sou capricórnio com capricórnio – disseram. Nunca vou dar o primeiro passo. Enquanto, divirto-me com o acaso num jogo infinito de tira e põe. Já não sei mais quem é que dá as cartas. Mas aposto alto, com beijos de boa noite e café na cama. Sinto falta daquele gosto. Ainda não sei por onde começar. O que sei é que você tem todo o direito de ir. Mas devia levar seus pedaços. Algo seu ainda está em mim. E eu estou com medo de querer ficar.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Ante o começo

E, não sei por que, tive medo de não te ver nunca mais. Bobagem, eu sabia. Bobagem... Mas alguma coisa por dentro me apavorava às vezes, como sobressaltos de escuridão. Não sei bem o que era; não sei. Sei que quando olhei seus olhos e, sem querer, sorri; toda uma estrutura rígida e segura se desmoronou em segundos. Uma estrutura aqui dentro. Não que eu não tivesse planejado: confesso. Eu já sabia que ver-te abalaria toda e qualquer rigidez de minha parte. Mas eu sabia na minha cabeça. Não sabia no corpo. Por isso, quando te olhei e, sem querer, sorri, tive medo. Medo de que um buraco no chão se abrisse e você escorresse por ele para todo o sempre. Medo de que tudo desse errado e de que eu nunca mais voltasse a te ver. Medo do fim antes do início. E não há nada. Eu sei, não há nada. Foi apenas um formigamento na boca do estômago: sensação infantil e romântica. Mas quando sorri, assim, sem querer, soube que não havia mais volta. Não por ora, não enquanto. Quando sorri soube, sem querer, que você seria meu companheiro de várias noites: eu dormiria com você na cabeça e acordaria embalada por bons sonhos. Mas agora, entre lençóis e travesseiros – e ainda sem você – tive medo. Medo de não te ver nunca mais e de deixar de dizer palavras que fariam seus olhos sorrirem. Medo de não chegar tão perto, e de não tocar jamais. E mesmo agora, enquanto escrevo, acho-me boba; mas tenho medo! Um pavor intenso e absoluto de você não voltar mais. Um sentir-me ridícula de não saber como me comportar com você. Um desespero profundo de estar me sentindo uma adolescente distante e um pânico supremo de me pensar de fato adolescente na sua presença. Agora, sei, posso me controlar. Mas quando olhar novamente em seus olhos pode ser que, de novo, eu sorria sem sentir. E aí não sei se vou conseguir segurar a tensão e conter o abraço. Ando querendo te olhar. E por isso tenho medo. De que o chão da sala se abra, e você escorra pelo buraco sem fim. Medo de olhar para você, e não sorrir espontaneamente. De querer te abraçar com força e corar – sem querer. Medo de tudo não passar de uma impressão, e sentir, ao te ver, que as borboletas foram embora, que não há mais nenhuma formiga. E medo, principalmente, de descobrir que é tudo real. Medo de não saber o que fazer. Medo de querer você e não poder, e medo de poder e você não querer. Ai, medo. Volto para os meus lençóis – alheios às minhas loucuras – que me acolhem, aconchegantes, para mais uma noite de medo e você. De eu e você. De mim.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Da incerteza do acaso

E enquanto a água gelada lhe escorria pela face – ainda suada – arrependeu-se por um momento de não tê-lo feito antes. Preservara-se por pura falta de vergonha, quisera fazer-se de vítima. Mas agora, com os seios ainda dormentes e o pensamento ainda vazio, teve a certeza de que não adiaria mais nenhum minuto. E enquanto a água lhe escorria pela face, como lágrimas incontroláveis, lembrou que ele ainda estava na cama, inerte, embriagado pelo seu aroma e seu sabor. Em seus lábios, também o gosto dele se misturava a palavras sem sentido, que ela dizia sem querer, como se nascessem do instante. Sentiu na pele um arrepio fugidio e, no estômago, por fim, borboletas. Aqueles olhos azuis não lhe saiam do pensamento, penetrando, sutis, no seu mais oculto segredo. Estava enfim juntos, depois de tantos quem-sabe e de quantos talvez. Por um instante, deixou-se pender ao peso da água, e agradeceu pelo encontro promovido pelo acaso. Coincidências não existiam, sabia. Por isso, quando ousou desligar o chuveiro e deitou-se novamente a seu lado, sabia que não havia mais volta. Acabara de entrar em um labirinto sem fim, que consumiria ainda alguns anos de sua existência. E sorrindo suas covinhas rasas, penetrou também naquele oceano e lhe disse, com os olhos, coisas que os lábios não ousariam dizer. Foi um segundo mágico: um encontro de almas e lábios. E olhando para ele assim, tão alvo e tão novo, teve medo do que poderia fazer com o futuro daquele garoto. Era um garoto, enfim. Ela, uma mulher. Segura e decidida como as mulheres às vezes o são. E embaixo daquele ventilador pulsante, na meia luz do quarto ainda em sombras, sentiu-se infantil e desprotegida diante do garoto. Com seus olhos azuis e seus cachos dourados. Abraçou-lhe por um instante, e o enroscar de pernas provou sua certeza: entrara em um labirinto sem fim. Fechou os olhos por um momento, aproveitando a sensação de fragilidade que lhe invadira. E, quando afinal os decidiu abrir, viu que o menino vertera uma lágrima. Gorda e delicada como as suas próprias. Pensou em dizer palavra, mas ele tampou sua boca com os lábios em um beijo de cumplicidade e amor. Mas amor assim tão rápido? – duvidou. Mas ele lhe sorriu com a certeza dos homens maduros. Sorriu-lhe com sua graça de garoto, e com os olhos marejados de dúvidas sinceras. Então teve certeza de que aquilo não era nada; absolutamente nada além de um encontro inusitado. De uma decisão premeditada. De um artifício bobo e fascinante promovido pelo acaso. E teve certeza de ter estabelecido um início; um início bonito e tardio de algo que, algum dia, teria fim.

domingo, 22 de novembro de 2009

Quanto a mim

Tenho falado pouco de mim. Tenho escrito nessas linhas detalhes sutis da vida dos outros (que não existem). Fantasio, fofoco, recrio. Mas tenho falado pouco de mim. A verdade é que estou gorda e um pouco cansada talvez. Tenho vivido vidas opostas; sonhos alheios, realidades irreais. E pensado pouco em mim mesma. Ando triste na medida. Sozinha e solitária como quase sempre. É que gosto muito da minha companhia, dos meus pensamentos. E, desta vez, estou de fato me acompanhando. Parei de usar estórias antigas e fugazes para me distrair. Tenho um foco claro e brilhante (que teima em percorrer as escadarias da ilusão). Ladeira acima, coloco um pé por vez. O alto do morro está lá, a uma distância intangível – graças a deus. Tenho sido mais complacente e compreensiva. E estou calma com relação ao futuro. Todo dia um dia novo; todos os dias uma nova descoberta. Conheci coisas belas e sujas. Coisas podres de pessoas laqueadas, faces ocultas de sorrisos sinceros. Ando em minha própria companhia. Às vezes, flagro olhares furtivos e aflitos que buscam uma compreensão profunda qualquer. No fundo, estamos todos presos em nossos castelos; subindo os altos muros para nos escondermos das (nas) sombras. Acho bonita a idéia disso tudo. Utópica. Mas vejo cada vez mais gente se perdendo no labirinto, procurando saídas para problemas inexistentes. É tudo uma questão de perspectiva. Do alto, as coisas de baixo parecem pequenas. Mas quem insiste em rastejar tem ótica diferente: mundo de gigantes e fantasmas. Ando no prumo. Com a cabeça ereta e os sentimentos em dia. Acho uma pena não me envolver mais com certas pessoas; arrependo-me de envolvimentos desnecessários. Mas hoje (ou seria ultimamente?) sou sincera comigo mesma. De uma verdade crua e dolorida. Digo coisas que nunca deveriam ser ouvidas. As palavras falam por si só. Mas não perco mais meu tempo com relacionamentos infrutíferos e desgastantes. Preservo-me com armaduras e látex. Mas ainda espero – esperança urubu – olhos que faísquem os meus; peles que me façam ferver. Por ora, ando em calma. Silêncio custoso e real. E as saudades – que foram muitas e intensas – têm se aplacado em vagar, criando a certeza de que o que é não deixará de ser jamais. E o que não é não merece um só pranto. Conto carneiro ao revés. Brinco de lobo mau. E ando ativa: pró e passiva dos acontecimentos do enredo. Deixei-me levar. Por ora (confesso), ando cansada de manusear os títeres. Sou boneco sem rumo, bailando esta valsa louca: composta pelo acaso.

sábado, 21 de novembro de 2009

Branco

Com os dedos já em sangue de tanto tecer, olhou a vestimenta completa e orgulhou-se de si. Havia engenhado o mais perfeito manto. A mais linda prova de fé e sagacidade. Pensou em desistir por um momento, mas vendo o brilho daquele pedaço de tecido – que há pouco não passava de um trapo – teve certeza de sua missão. Nunca mais deixaria de coser. Foi banhar-se, então. Não se sentia digna de tamanha realeza, e por isso banhou-se, lavando o corpo e a alma. Enquanto a água gelada dourava-lhe a pele, desculpou-se por tantos erros e por todas as mentiras. Olhou as falanges – desfiguradas e irreconhecíveis – e não conseguiu ver nenhum sacrifício naquilo. Por um instante, teve certeza de que toda a sua vida só tinha sido necessária para chegar àquele exato momento; àquela deliciosa sensação. Seu corpo inteiro formigava, em uma dormência embriagadora e apavorante. Tinha borboletas no estômago e, enquanto a água gelada lhe escorria pelo rosto, e seus olhos fechados lhe mostravam o breu, soube que a felicidade não passava de um segundo. Infinito e irreal. Teve pena dos que passariam pela vida sem essa sensação. Teve orgulho de fazer parte do que realmente importava. E desligando o chuveiro, com as gotas a abrirem caminho no chão de pedra, enrolou-se no manto sagrado, molhada do banho e das lágrimas. Hesitou em olhar-se no espelho. Não podia ser merecedora de tamanho deslumbre. Mas ousou. Prendendo os cabelos em um nó com suas próprias pontas, deixou mechas escorrendo pela face, e se atreveu a respirar fundo. Sabia que seus lábios estavam vermelhos e inchados. Sentia seus peitos bailando num cancã frenético de francesas de outrora. Pensou em desistir de sua audácia, mas viu-se de relance no espelho comprido, que apresentava o manto por inteiro envolvendo a sua nudez ainda juvenil. Era então uma santa. Alva e rubra, manchada pelo sangue espesso que brotavam das bolhas dos dedos. Era ainda jovem. Mas já sofria na pele as chagas da transformação. Sentia medo, orgulho, desespero. Era apenas mais um passo indeciso e concreto rumo à vida adulta e, quiçá, adúltera. Passou os dedos nos lábios em um gesto sensual que lhe fez questionar sua serenidade. Paralisou-se. Mas era tarde demais. Já estava vestida de branco, borrada com o sangue que lhe escorria pela pele. Na cama, não menos apavorado do que ela, o homem já dava sinais de profundo amor e submissão. Tinha, sem querer, ganhado um jogo perdido. Estava com os dedos doloridos, e os lábios cansados e vermelhos, gritando de dor. Sentia-se plena e envergonhada. E tinha, agora, uma história para contar. Cedendo seu peso ao quente da cama, sentiu aqueles braços fortes a envolver sua magreza. Aquela língua úmida a desejar sua nudez. Teve medo da morte. E, com os olhos fechados e o lábio entre os dentes, pediu, em silêncio, para que o tempo nunca passasse.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Castelo

Com os olhos marejados, respirou fundo e voltou. Não era a primeira vez que o fazia. Mas desta vez suspirou diferente, como quem ainda não sabe o que está por vir. Teve medo, enfim. Mais uma vez foi hostil, falou mal de si mesma, pensou bobagens, sorriu mentiras. E encantou. Como de praxe, encantou. Mas assustou também. E, com sua armadura devidamente colocada a quilômetros de distancia, fez sua barreira mais eficiente do que nunca. Aí se sentiu sozinha no castelo que havia construído para si. E não soube como sair dele. Havia fechado as entradas, barrado as saídas, trancado as janelas. Olhou-se refletida em vidro, e teve medo de sua pavorosa astúcia. Como havia sido tola – pensou. E, aos poucos, de leve mesmo, principiou a afastar as cortinas, deixando entrar pequenos feixes de luz, sorrateiros. Ainda sim, não conseguiu conceber a possibilidade de destrancar a porta. Mas experimentou abrir as janelas, deixando o sol entrar de vez. Foi então que o castelo ficou quente e, sem perceber, a princesa teve vontade de brincar nos jardins, de sentir a brisa leve a lhe balançar os cabelos, e de corar as faces de vergonha e mormaço. Sorriu – como há tempos não o fazia. Deparou-se com um rosa ainda em botão, que a fez pensar, sem querer, em um sorriso distante que por ora parecia mortificado. Mas ainda assim sorriu. Estava de novo entrando em contato com a natureza e com a vida. E foram as borboletas que sobrevoavam o jardim que a fizeram perceber como o seu coração andava em pedra. Amoleceu-o em banho-maria, transformando-o em uma substância pastosa e doce como brigadeiro. E as muralhas do castelo derreteram-se instantaneamente, abrindo os horizontes para as montanhas e o mar. A princesa, nesta hora, cantou. Com os lábios e a alma. E convidou a lua para um passeio noturno. E foi assim que, ao acaso, os olhos da princesa voltaram lentamente a brilhar, e o seu coração voltou a adoçar a vida de sapos e príncipes. Assim. De repente. Porque é de uma decisão que brotam os pequenos amores. De um sorriso no olhar e de uma certa calmaria interna. E de um desassossego moreno, de olhos fundos e coxas grossas. E é assim, inspirada pela estória da princesa, que planto uma semente de cacau – primeira e eterna. Planto para que germine. Rego para que dê frutos. E sorrio, para que saibam que por baixo de uma casca grossa, sempre pode haver uma deliciosa surpresa.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Retorno

Ouvindo palavras que não sei de onde vem. Tenho saudades dessas vozes que adentram meus ouvidos e me fazem pensar em coisas que eu já tinha abafado. Ah saudade daquela pessoa que já fui e não sou mais. Hoje levo a paz. Uma paz profunda e serena, que me faz esquecer por instantes do maremoto que sou por dentro. A ausência me faz completa. E, na completude, me falta um pedaço. Estou feliz com as coisas que deixaram de ser. Caminho da vida. Pequenos sorrisos conquistados, pequenas conquistas sorridentes. Hoje vou deixar de me esquecer, e lembrar-me daquilo que está por vir. Os cabelos loiros, o sorriso, as possibilidades. Ah vontade arrebatadora de deixar de acontecer. De deixar acontecer e só. Sou o sonho e as pequenas realidades. As responsabilidades e as pequenas loucuras cuidadosas. Sinto medo de deixar de ser. E deixarei, é fato. Deixaremos, todos. Por ora, choro lágrimas de profunda beleza. Pequenos brilhantes em meio a este deserto de ganância. Simples jogos de cena que criarão a poesia desse nosso viver. Tenho pena, ainda. De mim. Não de mim. Não de nada, de tudo, enfim. E as cifras magnéticas e intangíveis enfim começam a fazer algum sentido obscuro e delicioso. Na carteira, fotos antigas e amareladas. Cartões, fichas, possibilidades. Tenho elaborado um projeto. Minucioso. Envolve alianças e um altar. Olhos calmos e febris. Ao lado, na brancura do edredom vazio, a solidão. Bonita, ela. Passageira. No bolso, o bilhete para outro começo. Inicio de tentações e libertinagens. Ainda os cachos loiros. Ainda aqueles olhos apertados, abraços apertados, amassos. Coisas belas e sujas; profundas e sutis. Ao mesmo tempo, o pânico. Rosas, flores, fotos. Cartões e cartazes. Uma sensação de borboletas no estômago, um enjôo, uma gordurinha localizada. Tudo na mais perfeita imperfeição. Natural. Covinhas e umbigo, sentimentos, sentido. Há sentido? Sorrisos. Só risos. Olhos calmos e profundos. Olhos tristes. Castanhamente. Com calma, sigo arrepiada na tênue linha que separa a loucura do não ser. Será? Com pêlos eriçados, nada mais precisa de justificativa. Ação, apenas ação. Letras soltas em telas irreais, olhos fervorosos em busca de sentido inexistente. Tudo pouco. Tudo melodias repetitivas e deliciosas. E o medo. Graças! O medo. Sempre e nunca. Nuca. Boca. Chão e asas. E o céu, mais próximo que o chão, mais bonito que o próprio. Mais meu. E seu. Como é bom estar de volta!

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

No pulo

Só então percebeu que nada do que falava fazia sentido. Ela havia inventado, como sempre. Havia criado uma realidade paralela bem mais interessante do que a realidade que vivia. Pena – pensou. Mas sorriu, observando os pássaros negros que voavam ao longe. Ainda pela janela, pode avistar o pôr do sol, que se apresentava sem pressa, em um palco distante. Pensou novamente no ator, e em quando voltaria a vê-lo. O tempo era seu principal inimigo. Tentou desvencilhar-se destes pensamentos soturnos, e lembrou-se daqueles corpos, ainda garotos, a se conhecer em um réveillon qualquer. Fazia muito tempo. E o tempo era seu inimigo. Sorriu sem graça dos cabelos desgrenhados que lhe olhavam agora, do fundo da tela. Ela sentia saudades. E ele, o que sentia? Sorriu de dúvida e de medo. Chorou. Nada como envelhecer. Dia após dia, ruga após ruga. Renew – pensou. Nada mais óbvio. E, besuntada de creme, teve vergonha de seus pensamentos eróticos. Era hora de dormir. Pensou nos loiros cachos que compartilhavam suas idéias. Parceria vitoriosa. Pensou nos outros cachos, ainda curtos, a se enroscar nos seus. Loiros cachos também. Parceria perfeita, formada ao acaso. Não sabia a hora de contar. Mas lembrava dos sorrisos que nunca havia visto, e queria trocar letras e sons. Queria fazer um amor dançante, cheio de arte e harmonia. Se era a pessoa certa? Ainda não sabia. Mas sempre se precipitava. Era de praxe. Sempre se surpreendia. Soluçando de uma noite feliz, teve pena do garoto ainda menino que morreria antes de saber o que é o amor. Para ele, faltava a calma de esperar. Para ele, faltava apenas a paciência de saber. Detestava saber dos amores com antecedência. Sempre lhes depositava mais moedas do que mereciam. Estava de novo fantasiando. Brincando, mais uma vez, de ser feliz. Tinha saudade dos olhos tristes, da melhor boca do mundo, das sardas perdidas por aí. Mas sabia de cada pequena pinta localizada. Sabia pensar, enfim. Pensou, portanto, o quanto seria bom mais um trago e ainda mais um gole. Pensou naqueles braços que não lembrava, e naquela pele que jamais poderia esquecer. Pensou, enfim, nele; como jamais ousara pensar depois de tudo. Pensou nos sorrisos, e nos olhos, e na dor. Sentiu-se parte. E distante. Perdeu-se. E chorou. Com as mãos vacilantes, e os olhos concisos. Chorou de amor e de medo. Porque o tempo passa. Passa rápido. Passa perto. Passa por nós.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Destinos

E então ele subiu o morro e se despediu – sem olhar para trás. Não queria ver os olhos cintilantes da menina que sorria. Não queria admitir sua própria partida. Correu por entre os carros até alcançar a porta do ônibus e parou, por um momento. Pela primeira vez, hesitou. Não queria se afastar. Mas era preciso. Naquele momento, era preciso. Enquanto sacolejava pelas estradas esburacadas, pensava naquele sorriso inocente, que ele se recusara a ver. Jamais esqueceria aquele sorriso a lhe atravessar as costas e atingir – em cheio – o coração.

Parada no sopé do morro, a menina ainda guardava nos lábios aquele sorriso sem graça. Os olhos ainda brilhando como luas novas. E, embora tentasse transparecer essa atmosfera calma, por dentro era só trevas. Um oceano escuro e revolto de sentimentos que não podia compreender. No ventre, a esperança de dias melhores. No ventre, sua sentença irrevogável de vida. Tentava – bravamente – conter a ânsia de vômito que lhe invadia ao pensar nele, sozinho, sacolejando pelas estradas esburacadas. Ela também deveria estar lá. E ele fora embora sem ao menos olhar para trás.

Por mais que tentasse se convencer, ainda não conseguia acreditar que tinha tomado a decisão certa. Tinha-a deixado para trás, como o ventre ainda em ponta e os olhos ainda em mar. Não era certo. Não era justo. Mas não podia adiar seus planos por causa de um percalço. Deveria, sim, seguir em frente e construir o futuro que traçara a duras penas. Ainda que sozinho. Por um instante, chorou. Não era certo. Não era justo. Só metade de tudo aquilo era verdade. O sonho estava dividido em duas partes desiguais e desconexas. Três partes. Seria menino ou menina? Com as ondas a lhe avançar pelos olhos, soluçou quieto enquanto tentava tomar a decisão mais sensata. Havia gasto todo seu dinheiro. Já usara todos os sonhos que lhe cabiam no bolso. Do lugar exato onde estava, não havia volta. Não mais.

Tentava compreender os motivos de sua partida. Tinha, a muito custo, apoiado sua decisão. Mas depois de ouvir o ronco do motor ao longe e de não sentir as pedras do caminho, passou a desacreditar da sorte. Por dentro, era só ausência. Uma ausência maldita e desesperadora de se sentir dois enquanto era metade. Carregava consigo um amor convulsivo e desesperado. Um filho natimorto de paixão abortada. Um ventre recheado de desilusões e angústias. Por alguns segundos, sentiu-se morta, e tal sensação lhe foi demais agradável para conseguir afastar o pensamento inevitável do fim da vida. Abreviar o sofrimento seria um ato de coragem, e não de covardia. Sorriu de sua destreza. Sabia, enfim, como lidar com a situação.

Dentro das lágrimas que rolavam de seu rosto endurecido pelo tempo, havia algum tempero amargo de culpa. Sabia que não podia tê-la deixado. Sabia que o fardo era também seu. Por isso, na primeira parada do ônibus, teve ganas de sair correndo, e nunca mais voltar. Mas deixou-se ficar na cabine do banheiro, sentado por sobre o vaso sujo e malcheiroso, tentando embriagar-se de pingas e pensamentos. Tentando encontrar forças para se levantar. Ouviu quando o motor voltou a ligar-se, e o motorista buzinou duas vezes, anunciando a nova partida. Ouviu, mas continuou parado, no mesmo lugar, esperando que o acaso decidisse por ele. Lembrou-se daqueles olhos de lua nova como duas estrelas a iluminar seus passos. Tomou mais um trago, e ainda outro, e outro. Deixou-se cair por entre a louça do banheiro, e seus soluços poderiam ser ouvidos a quilômetros de distância, caso não os abafasse com aquela mão calejada e tosca. E com aquela certeza de que nada iria mudar.

Sorriu de sua bravura e custou a acreditar no que faria. Ela, menina-moça, tão vulnerável e tão forte, tão absolutamente dona de seu destino. Não teve tempo de repensar. Nem sequer hesitou. Correu morro acima, por entre os carros e os ônibus e ainda mais e mais. Chegou ofegante ao topo do morro – mirante da cidade – e ainda antes um pouco observou a vista. Ainda teve este tempo. Observou a cidade que lhe prendia e o abismo que a libertava. Tomou um pouco de distância, sentiu a pulsação aumentar numa descarga de adrenalina, e se lançou. Um salto para o infinito. Uma gota de liberdade. Naqueles segundos intermináveis – enquanto durava a queda – ainda teve tempo de ter certeza de que não podia se arrepender. Não iria se arrepender. Morria consigo o amor e o destino. Estava, enfim, livre outra vez.

Dormiu abraçado àquele vaso imundo, alternando crises de choro e vômito. Como companheira, apenas a garrafa plástica de aguardente barata. Acordou no meio da noite, entre o som dos grilos e dos pneus no asfalto. Não sabia ao certo quanto tempo tinha ficado ali. Não sabia mais se lhe restava algum tempo. Com as migalhas de sua dignidade, pensou que não poderia – jamais – voltar para casa assim. Ficaria rico. Só voltaria para lá quando estivesse rico. Ainda seria digno de rever aquele seu sorriso inocente, e aqueles seus olhos cintilantes. Por ora, pedia desculpas a si mesmo e maldizia o destino. Mas a sorte ainda havia de mudar. Um dia – ele pensava. Um dia...

Por alguns dias, pensaram que ela tinha fugido atrás dele. Custaram a encontrar o corpo em frangalhos no fundo do precipício. Tentaram avisá-lo. Em vão. Havia sumido no mundo como um rato. Ninguém jamais o encontraria. Anos depois, ainda sem dinheiro e com nenhuma dignidade, fora encontrado morto em um quarto sujo de hotel barato. Cirrose – diagnosticaram. Nunca soube de seu salto no abismo. Passou o resto dos dias com uma pedra presa aos pés, como um afogado a se debater. Não conseguira emprego, nem dinheiro, e muito menos amor. Ainda um pouco antes de seu coração parar e seus olhos perderem o brilho, lembrou-se daquela lua nova e do sorriso cintilante. Sentiu pena de si por não ter conhecido o filho. Pediu desculpas e morreu sem paz.

Não se encontraram no além. Não se encontraram nunca mais. Com medo daquela pobreza arrasadora, morreram separados, cada um em sua miséria. Mas ambos, no último suspiro, maldisseram o amor. Maldito amor. Maldito e sufocante amor.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Conquista

Mais uma dessas viagens inesperadas, que me ocorrem de madrugada, enquanto os dados do cartão de crédito cismam em estar ao alcance das minhas mãos. Mais uma atitude impensada. E de novo eu, sozinha, no aeroporto, pergunto-me por que é que estou de novo indo para lá. Por que assim, tão de repente. Não sei se sei fazer planos a longo prazo. Todos eles se desfazem antes do tão sonhado dia. Vivo o agora. Por hoje, malas arrumadas com pressa, dia cheio de compromissos inadiáveis e, de novo, a paz. Do alto, de cima, a paz. A estranha sensação – pela primeira vez – de não estar voltando para casa. A casa é a que fica. Vou de passagem, de visita. Meu lugar é no sovaco do cristo, no edredom branco com almofadas vermelhas. No banheiro ainda sem box. Estranho a sensação de crescer, de achar meu lugar no mundo diferente do lugar onde nasci. Tenho saudades dos amigos, das crianças, dos momentos, de lugares. Tenho saudades de um eu que fui e já não sou. O passado, como parte do presente, infelizmente não me serve mais. Roupas velhas que deixei de usar, embora ainda as guarde com carinho. Aos poucos, vou sentindo a familiaridade do exílio. Sensação que nunca imaginei plenamente possível. Lembro daquele menino com os olhos tristes, que me sorriu, doído, antes de partir. Talvez ele não tenha encontrado esta paz. Me compadeço dele e dos momentos que não vivemos. Ainda não consigo deixar de acreditar que teria dado certo. Mas agora, outros olhos me sorriem brilhantes, e eu acabo por me convencer de que daria certo, de qualquer forma. Sozinha, vazia, custo a esconder a sensação de completude que me invade. Sorrio da mulher que me tornei. Ainda menina, ainda sem graça. Mas forte como sempre e confiante como nunca. No saguão, por entre os ouvidos, ruído de teclas soltas a se divertirem com os dedos. Mais uma lua de mel com o teclado. Por dentro, uma esperança maldita, que brinca de me preencher e me iludir. Sempre gostei de acreditar. Ainda olhos castanhamente tristes, ainda cabelos levemente desgrenhados, ainda um sotaque acentuado. Ainda em mim imagem dos que se fizeram sentir, e dos que ainda hão de se mostrar. Observo com calma o caminho que eu mesma desenhei. Dou passos lentos e contínuos rumo ao futuro. Afinal, não foi isso que eu quis? Não pedi, batalhei, conquistei e me surpreendi. A vida acontece no enquanto. E o medo, por mais que pareça assustador, é inevitável e vital. Viva o medo. A alegria. A esperança e o amor. Benditos os sonhos que ousamos sonhar e tivemos a braveza de construir. E viva o futuro. Esse invejável senhor que nasce sempre do agora.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Prelúdio

Fazendo coisa errada, eu sei. Mas como é bom errar de vez em quando... Nada como perder os pudores, e viver a verdade. Nada como respeitar o corpo e se render ao mau-senso. Não gosto de pensar nas conseqüências quando elas são efêmeras e – convenhamos – insignificantes. Bobagens. Apesar de tudo, somos adultos, e sabemos muito bem onde essa montanha russa vai dar. Obviedades. Por isso arriscamos. Pois sabemos dos contratempos e das ridicularidades.
(Tempo)
O tempo passou e as bobagens continuam sendo feitas. Nesse arquivo intangível, fica fácil acompanhar as desilusões e desavisos de uma vida bem regrada. Nada mais natural do que errar. Por ora, ando observando movimentos alheios, pensando em irreais e sutis separações e desencontros. Brincadeiras de adultos. Como crianças, continuamos correndo contra o tempo, tentando inibir esse tal futuro que nos apavora e nos consome. Morrer já não parece novo. A proximidade do fim nos envelhece. Rugas a mais, sentimentos a mais, tempo de menos. No relógio, ponteiros incessantes girando em torno de nossos umbigos. Vida que segue. Nada como a vida para aplacar a morte. Hoje, sinto saudades doídas das crianças que já não são. Penso em meus sobrinhos, correndo, felizes, para conhecer o novo presente. Presente é hoje. Saudade estranha da criança que fui e não conheci. Na cabeça, o tempo. Tempo demais para acreditar, tempo pequeno para se desiludir. Tenho refletido sobre trocar de profissão. Custo a admitir, mas acho que os dedos andam me dando mais alegrias do que os palcos. Decepções. Escrevo porque preciso. Desisto porque me entendo. E, dia após dia, vou elaborando esse labirinto sem saída aparente, este turbilhão de idéias que resumem a existência. Sentada no parque, sozinha, atrás de mesa enorme. Sozinha comigo mesma. Vou brincando de ser o deus da sintaxe. Vou mexendo nas palavras e guimaraneando verbetes. Escrevo o que sinto, não dicionario. Por vezes, duvido das letras e das frases. Elas não importam. Fonema por fonema, o texto se faz sólido; construindo, por si, seu completo significado. Estou travada. As cenas, perfeitas em pensamento, recusam-se a ganhar vida no papel. Não há ilusão real. Pingo por pingo, a enxurrada de letras se faz cachoeira, tocando, gelada, corações que andam em pedra. Letras são a matéria da alma. Metafísico? Não sei. Acredito nos livros e nas poesias. Duvido dos poetas e escritores. Indivíduos são veículos das línguas. Não são a arte. São a torneira por onde ela escoa incessante; por vontade própria. Hoje cantarolo uma música que não conheço. Brinco de adivinhar o futuro e de me iludir com ele. Hoje esqueço o prazer e procuro um amor. Amor calmo, como já o disse. Tenho duvidado das coisas reais. Tenho sonhado com aquele cabelo desgrenhado. Mas enquanto os carneirinhos não param de pular a cerca, prefiro manter os olhos bem abertos. A realidade me afoga. Mergulho em dias calmos de sol e brisa fresca. Firmo parcerias importantes, brinco de acreditar. Porque por nada, sem nada, o jogo da vida se desfaz. Sem querer, sem razão. Porque o último pode ser hoje, e o dia parece lindo. Carpe diem. Aproveitem.

domingo, 4 de outubro de 2009

Trava

É que às vezes os dedos travam. Não conseguem tecer sutilezas; só cruas estampas da realidade. Perdoem-me. Mas vazios também são preenchidos de formas. Voem comigo. Bailem em mim. Eu, por ora, preencho os espaços brancos com luzes coloridas. Tenho sinalizado caminhos sinuosos. É que passos às vezes são apenas impulsos. Ímpetos. Vetor vertical e agressivo, que pode chegar a lugares irreais. Não se neguem a beleza da verdade. Nada melhor do que a auto-sinceridade. Tenho me mentido com uma freqüência encantadora. Perco-me em minhas próprias estórias de criança. Bailo. Os dedos, como dois pés esquerdos, mexem-se à força. Andam fazendo doce. Deixam de melar as palavras. Não sei ainda o por quê, mas as letras me parecem incrivelmente distantes. Cada uma sozinha, em seu devido lugar. Por isto, música. Por isto, poesia. Porque quando as máquinas param, e as engrenagens deixam de se encaixar, nada melhor que óleo. Perfumes para a alma. Na brisa gelada do mar, ainda há alguma esperança perdida de uma orquestra em uníssono. Cantamos o hino de nossas vaidades. Ainda chegaremos lá. No pote de ouro, do outro lado do arco-íris. Por aqui, só cores esparsas. Creiam-me: estou oca. Nada de relevante para dizer, nenhuma boa cena a ser escrita, nenhum grande amor a me brilhar nos olhos. Apesar disso, a brisa, leve, me acalma. Porque amanhã será outro novo dia. E novos dias sempre trazem novos ares. Respirem fundo. A plenos pulmões. Notícias de outros tempos hão de chegar por aí...

sábado, 3 de outubro de 2009

Quando não dá

Tenho o péssimo hábito de ser abstrata, sei. Mas hoje resolvi usar todas as letras, colocar todos os pontos. O que acontece é que não acontece. Não sei se já aconteceu com você, mas, comigo, já aconteceu de eu ter que pedir para parar. Não que estivesse ruim. Era excelente. Tão bom que meu corpo não tinha condições de agüentar. Então pedi para sair, como quem desiste de batalha vencida. É que tem horas que ou o cara coloca a cueca e vai embora, ou lhe coloca uma aliança no dedo e fica para o resto da vida. No caso específico, ele se vestiu e se mudou. Para mais longe do que eu podia imaginar. Mas, agora, me vejo em situação inversa. Sou eu que estou pegando as minhas coisas e saindo pela porta. Desculpa, mas esta efervescência que aconteceu em você, não aconteceu em mim. Simplesmente não aconteceu. Eu não tenho culpa. Você não tem culpa. Simplesmente não era para ser. Sei que é difícil aceitar, mas eu, infelizmente, tenho dificuldades em dizer não. Adoraria lhe sorrir mais uma vez. Mas não me é possível. Ao escancarar-lhe os dentes, verteria lágrimas em mim. Não temos culpa. Eu já estive do outro lado, creia. E ele foi embora sem ao menos uma explicação. Por isso tento me abrir. Para aplacar uma dor que - eu sei - é inevitável. Não me leve a mal. Me leve à toa. Os controles não são movidos à pilha. Nem sempre a dramaturgia segue a pulsação. Peço desculpas pelo sofrimento, talvez ele pudesse ter sido evitado. Mas não pude reger a orquestra que tocava em ti. Em mim, vários músicos se reúnem. Tenho ouvido ruídos. E não é porque não é valsa que você não me tocou. Outros atores têm percorrido as minhas fantasias. Mais reais. Peço que se conforme. Talvez outra personagem venha a preencher seus diálogos. Mas não eu. Desista-me. Desata-me. Sou opinião e cenas. Mas em você, não sou real. Cachos morenos e albinos percorrem meus pensamentos. Ando não gostando da reteza. Desculpe-me. Decupe-me. Há de haver alguma explicação. Acredito no acaso. Mas não posso querer-te, assim como não posso cobrar um amor vadio. Decifra-me. Desista-me. Sou de outros olhos e de outra dor. Sou de ninguém e sou de outro alguém que me tocou. Não você. Não agora. De outro. (In)felizmente.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Visões

É como um mar revolto – disse – e se calou. Durante horas permaneceu num silêncio incômodo, deixando que suas palavras ecoassem pelas paredes imundas daquele quarto de dormir. Ela não se mexeu. Não entendeu o que ele havia dito, e não o quis entender. Bastava. Não agüentava mais as lamúrias sonolentas e inacabáveis daquele que um dia fora seu Homem. Só lhe restava os trapos. Nojentos e marrons, como aquele leito fedorento em que se encontravam. Nas janelas, palavras a giz desapareciam aos pedaços. Lembranças de um tempo que fora bom. O passado é um incômodo presente; uma linha cortada preenchida por memórias inventadas e imprecisas. Não queria se lembrar. Ao seu lado, nu, jazia aquele corpo masculino desprezível, ainda sedento de seus suspiros. Não queria mais, era apenas isso. Não queria ele, nem ela, nem aquele lugar. Queria inexistir. A morte era pouco para quem já se aproximara tantas vezes. Desafio ridículo. Nos pulsos e na alma, as cicatrizes ainda sangravam como gangrenas incuráveis. Desistir não era o bastante. No ventre inchado de algumas semanas, a perversão cruel daquele a quem chamavam Deus. Não acreditava em destino. Apenas em acaso. Olhando com outros olhos, o quarto parecia limpo, as cortinas bem colocadas, os lençóis brancos cheirando a alfazema. Olhares. O cheiro de esgoto lhe invadindo as narinas, e aquele sorriso ao seu lado exalando eucalipto. Nada mais desprezível. Tentou quebrar o silêncio com algum ruído calculado, mas os membros permaneceram inertes, tocando de leve a sua pele e aquecendo-a com aquele fresco calor. Desprezível. Enquanto engolia – muda – o choro, pensou diversas vezes em sangue. Era natural. Mas o suor que lhe escorreu dos olhos parecia um triste indício de que não seria capaz. Não mais uma vez. Passou, incólume, pelos calafrios que lhe percorriam o corpo e tentou engolir o vômito que, a essa altura, já lhe subia pelo peito. Tudo em vão. Ao seu lado, o Homem. Quente e febril como qualquer outro homem. Com seus cabelos negros e lisos escorrendo por sua coxa branca. Com a respiração ofegante de bicho acuado. E só. No mais, apenas o silêncio. E o barulho das ondas febris, atirando-se para a morte na areia da praia.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Desencontros

Relutando ainda um pouco em escrever acompanhada. Gosto da solidão. Dificulta-me olhares alheios e curiosos, tentando, sorrateiros, descobrir o que se passa em minhas mãos. Não sei do que será. Escrevo o agora. Esse agora fugidio que escorre, incessante, pelos ponteiros da parede. Por dentro ando em calma. Me sinto cruel. Não tenho culpa. Não há culpados. Não foi me dada a sorte de escolher o que se passa comigo. Em mim. Pensamentos acontecem. Pulsações se impõem. Sou apenas um corpo. Mas somos adultos, sabemos. Estamos expostos ao risco. Cabe a cada um lidar com seus fantasmas e seus castelos. Tenho os meus. Medos. Não julgo olhos alheios, mas sinto-me julgada pelo desprazer de ser. Sou. Sinto. Mas des-sinto e des-sou a todo instante. Metamorfose. Imperfeição. Sou apenas o que meus sentidos fizeram de mim. Perco-me e acho-me a cada mergulho profundo, a cada silêncio conciso. Dor. Não faço brilhar olhos por querer. Não os quero sangrar. Mas sou pimenta. Ardo em outros como cortes em mim. Corto. E o sangue me enlouquece aos poucos, fazendo de mim feridas alheias; grandes gangrenas pessoais. Sou praga. Toco e apodreço. Pedra, ouro. Contos de fadas que terminam no para sempre. Mas sempre é utopia. Irrealidade. Não existe o que não deixará de ser. Osso. Pó. Tenho pena das coisas que deixarei de levar. Sentimentos ricos, sorrisos brilhantes. Mas não posso obrigar-me a querer o que não é meu. Não cabe a mim impingir poesias. Sinto. Sou. E tudo ao inverso também. Descontrole. Se sábia, assim, fosse, teria comigo uma mala de idéias. Saco de toda ilusão. E vestiria, faceira, a doce fantasia da felicidade. Máscaras e máscaras de ilusão. Mas a vida é desencontro. Tempos errados, cortes secos. Não há edição. Sou feita de coisas ruins e feias. Coisas boas e sutis. Um paradoxo; fiel à minha verdade, por mais mentirosa que seja. Sou refém do meu sorriso e da minha consciência tranqüila. Gosto do travesseiro. Os balões são apenas coisas que me ocorrem. Carneiros. Não há como frear. Sou rodas ladeira abaixo. Sou dedos em pleno vôo. Sou o que o mundo me tornou. Dura, seca e transbordante. Paradigma. Paradoxo. Erro fatal; purgatório. Caldeirão de letras a borbulhar. Sentimentos incoerentes e descontínuos. Sou o que sou, e não o que deveria ser. Triste ser. Humana.